Ecos do Bom Lugar


Há poucas coisas neste mundo que merecem ser ditas, observadas ou até mesmo lembradas. Existem horrores que precisamos guardar no fundo do coração, lançar ao mar do esquecimento e nunca mais trazer à tona. Isso é algo que todo morador — ou melhor, todo sobrevivente — da vila de Bom Lugar sabe muito bem.

Que ironia de nome para o lugar que mais gerou órfãos. Um lugar que fez pessoas descobrirem tormentos que nenhum grande sábio da corte real dos Sete Mundos jamais estudou. Outrora, Bom Lugar fazia jus ao nome. Era um vilarejo farto, incrustado em um vale calmo, de moradores tão acolhedores quanto nenhum viajante jamais viu em outra parte. Tinha a melhor taverna que já frequentei, de cerveja escura e risadas sinceras, além dos campos de cultivo mais prósperos da região. Eu cresci correndo por suas alamedas de terra, respirando o cheiro de pão fresco e terra molhada. Eu amava aquele lugar.

Contudo, certo dia, um alquimista surgiu.

Ele trazia uma túnica gasta pelo pó da estrada, o olhar faminto de conhecimento e soluções para problemas que sequer existiam. Ofereceu curas milagrosas para males que antes nos levavam apenas aos conselhos dos velhos xamãs. Pouco a pouco, o homem destruiu o delicado equilíbrio do nosso mundo. A ruína não foi instantânea — oh, não... a mudança veio a passos lentos, sorrateiros e venenosos. Pessoas felizes começaram a se isolar em seus próprios pesadelos e ambiguidades; os campos de cultivo, onde os jovens costumavam se deitar para escapar dos afazeres ao entardecer, perderam a cor. A vegetação secou, e as colheitas apodreceram na terra antes mesmo de brotarem. Em questão de um ano, Bom Lugar tornou-se o canto do mundo a ser evitado.

Com o declínio da vida, as sombras da floresta ao redor se espessaram e trouxeram os primeiros monstros. As criaturas começaram a cercar os limites do vilarejo, matando o gado e arrastando os incautos para a escuridão. Os moradores viram-se obrigados a pegar em machados e foices para lutar. Foi nesse cenário de desespero que o alquimista — antes visto apenas como um curandeiro exótico — semeou a discórdia na mente do conselho e do líder de Bom Lugar.

“Por que limitar nossos defensores às barreiras da carne fraca? Por que não aprimorar o corpo de nossos guerreiros?”, dizia ele, com a voz aveludada e carregada de uma confiança venenosa.

O líder da vila aceitou a proposta sem pensar duas vezes. Cego pela responsabilidade e pela culpa de ver seu povo ruir, ele acreditava que a segurança do vilarejo era a única coisa que importava no mundo. No entanto, por trás daquela promessa de vigor e invencibilidade, nasceram aberrações incontroláveis. Homens e mulheres transformados em carcaças desfiguradas, tomados por uma sede insaciável de sangue.

“Um mero erro de cálculo... as correntes sanguíneas rejeitaram o reagente. Preciso fazer alguns ajustes”, justificava o alquimista a cada guerreiro cujas feições e carne se contorciam em abominações macabras.

Mais e mais pessoas tornaram-se cobaias silenciosas de suas falhas. Mais e mais a vila morria de dentro para fora. Até que não restou um único soldado são. Isso, contudo, não pareceu deter a ambição do alquimista — afinal, ainda restavam os idosos, as mulheres, as crianças. Ele insistia que, com cobaias mais jovens ou mais flexíveis, em algum momento o experimento daria certo.

Não deu.

Certo dia, uma comitiva da Guarda Real — composta por soldados em armaduras reluzentes, magos de batalha e o próprio Rei — marchou até Bom Lugar para investigar o silêncio da região. Encontraram lá o óbvio: uma terra condenada, tomada por pesadelos ambulantes que precisavam ser exterminados. O líder da vila ainda tentou argumentar, de joelhos na lama, implorando por tempo, garantindo que o alquimista traria a cura para todos os modificados. Mas a farsa ruiu em minutos. Descobriu-se que o estrangeiro era, na verdade, um fugitivo procurado por múltiplos reinos — um cientista demente que brincava de Deus através de artes proibidas, necromancia e poções profanas.

A decisão do Rei foi rápida e cruel, porém, na mente da corte, inevitável. Bom Lugar foi condenado ao apagamento. Os magos da corte ergueram uma barreira de névoa densa, mágica e perpétua ao redor de toda a vila. Ninguém mais poderia sair de lá. Qualquer um que ousasse entrar estaria entregue à própria sorte e aos monstros que vagavam pelas ruínas.

Anos se passaram no mundo exterior. Eu, que havia saído da vila ainda jovem para me tornar um mero aprendiz na Escola de Magia da Luz, passei noites em claro estudando grimórios, buscando uma forma de dissipar névoas profanas e purificar corpos corrompidos. Decidi que era hora de marchar de volta.

Caminhei hoje sob a bruma gélida e espectral que agora sufoca as velhas casas de madeira e pedra. O ar aqui dentro tem gosto de cinza e ferro. Os archotes solitários presa às paredes de pedra queimam em um tom esverdeado e estéril, lutando em vão contra a escuridão crescente. As rodas das carroças abandonadas apodrecem na lama negra do caminho; o silêncio pesado da noite só é quebrado, de tempos em tempos, pelo rosnar distante e doloroso das coisas que um dia foram meus vizinhos de infância.

Ajeito o capuz escuro sobre a cabeça e puxo a capa contra o vento frio que uiva entre as telhas quebradas. Seguro firme o meu cajado de madeira entalhada, sentindo a magia da luz pulsar, fraca mas viva, na ponta dos meus dedos. Ela serve como meu único farol neste purgatório.

Lá fora, nos grandes salões da corte, muitos julgaram aquele líder como um homem fraco e um tolo ingênuo. Um governante cuja cegueira e desespero condenaram centenas de inocentes à ruína e ao horror eterno. E talvez eles estejam certos. Mas enquanto observo a névoa engolir a antiga casa de dois andares no topo do vilarejo — o único lugar onde ainda brilha uma lanterna fraca —, sei que não posso voltar atrás.

Estou aqui por uma última promessa que fiz a mim mesmo nas noites escuras da academia de magia. Uma pequena fagulha de esperança de resgatar o homem que errou ao confiar no alquimista... o homem que destruiu nossa terra, mas que eu, mais do que qualquer outra pessoa neste mundo, ainda insisto em chamar de pai.

Edson N B Junior

Apaixonado por cultura japonesa, por animes, por mangas, por livros, por qualquer coisa que tome meu tempo e utilize muito bem dele.

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