Guardiões do Bosque



Dia 24 do Ciclo Outonal, Ano do Dragão XX

Uma manhã comum, de mais uma semana comum, em uma vida comum. Sempre foi assim e, pelo que parece, sempre será.

Para alguns, ser o guardião do bosque é um trabalho honroso; para outros, é desperdiçar talento, e há quem diga que estar aqui é o mesmo que desistir de uma vida de aventuras. Mas para mim, isso nada mais é do que uma aposentadoria. Já vivi, vi e fiz tantas coisas que meus jovens colegas de patrulha teriam pavor só de ouvir nas histórias dos bardos. Já sobrevivi a emboscadas que a Guarda Real nem sequer estaria preparada para lidar caso seus tão amados e protegidos herdeiros do trono algum dia sofressem no campo de batalha.

E quando o príncipe aceitou meu pedido para me tornar apenas o guardião deste bosque, foi algo que me deixou verdadeiramente feliz. Eu, um estranho vindo de terras distantes, de outros reinos, com mais mistério na bagagem do que se pode imaginar e talentos que poderiam servir a qualquer alta patente militar, finalmente consegui algo tranquilo. Uma lança simples de madeira, uma capa verde sob o sol dourado do outono e a tarefa insignificante de vigiar a grande fenda rochosa de arenito avermelhado que cruza a fronteira.

Ou pelo menos... era o que eu esperava.

O sol do meio-dia banhava a folhagem dourada das árvores cheguei ao Pico das Três Sentinelas — o afloramento de rocha vermelha que forma um portal natural sobre o vale. Três patrulheiros da guarda do feudo estavam parados no topo do arco, visíveis contra a luz alaranjada, vigiando a estrada como de costume.

Ajustei a lança no ombro e me aproximei pela sombra dos carvalhos, mas o cheiro que o vento do outono trouxe não era o de terra molhada ou folhas secas. Era cheiro de ferro cru e ozônio.

Aos meus pés, semi-oculta pelas raízes entranhadas na grama, repousava uma armadura completa da Guarda Real. Não havia sangue dentro dela. O metal prateado estava intacto, ostentando o brasão gravado do príncipe, porém vazio — como se o cavaleiro que a vestia tivesse sido evaporado de dentro para fora por um esconjuro arcano. Ao lado do elmo sem rosto, cravada fundo na terra por uma força descomunal, estava uma espada longa de aço valiriano, com runas de contenção brilhando em um tom azulado e gélido.

Ajoelhei-me, tocando a lâmina. As runas gravadas no aço não eram de proteção contra monstros comuns, ursos-coruja ou trolls de rocha. Eram runas de selamento de alta magia negra — do tipo utilizado apenas pelo alto clérigo da capital para prender criaturas abissais.

Olhei para cima, em direção às três figuras paradas no topo da rocha. Eles não estavam vigiando a estrada. Estavam imóveis. Parados como estátuas de madeira sob o vento de outono.

A verdade caiu sobre mim como o peso de uma maça de combate.

O príncipe nunca aceitou meu pedido por pena, bondade ou por achar que eu era apenas um veterano cansado querendo uma vida pacata. Ele sabia exatamente quem eu era. Sabia do meu passado no continente sulista e das guerras ocultas que travei contra as seitas arcanas antes de cruzar a fronteira.

Aquele arco rochoso não era uma simples formação natural do bosque. Era um Monólito de Vinculação, um antigo portal de invocação adormecido desde a Era dos Dragões. A Guarda Real havia tentado conter o que quer que estivesse despertando ali embaixo — e falharam miseravelmente, deixando para trás apenas suas armaduras vazias.

O príncipe não me concedeu um trabalho simples para me dar sossego. Ele colocou o extermínio em pessoa na porta de entrada do portal para que, quando o selo finalmente ruísse, a primeira linha de defesa fosse alguém descartável e sem vínculos com o reino.

O som suave de pedras estalando ecoou pelo arco. No alto da rocha, as inscrições arcanas entalhadas pelos antigos começaram a pulsar na mesma cor azul-fria da espada cravada no chão. As sombras sob o arco se esticaram contra a luz do sol, tomando forma e densidade.

Respirei fundo, sentindo o ar frio do outono encher meus pulmões. Soltei a lança de patrulha — de madeira frágil, inútil para o que viria a seguir — e segurei o cabo de couro da espada de aço rúnico cravada na terra, puxando-a de um só golpe.

Ajustei a capa sobre o ombro e encarei a fenda cintilante sob o arco de pedra.

— "Trabalho simples e de pouco estresse", eles disseram... — murmurei para o silêncio do bosque, esboçando um sorriso amargo. — Vossa Alteza vai me dever um aumento salarial desgraçado por isso.

Edson N B Junior

Apaixonado por cultura japonesa, por animes, por mangas, por livros, por qualquer coisa que tome meu tempo e utilize muito bem dele.

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