25 de jan. de 2026

Gachiakuta novamente estourando a bolha


É sensacional como alguns animes conseguem, do começo ao fim, manter a gente preso não só pela ação ou pelo impacto visual, mas pelo incômodo que deixam. Gachiakuta é exatamente assim. A obra vai avançando, responde algumas perguntas importantes, mas nunca parece satisfeita em encerrar nada de vez. Quando uma resposta chega, ela quase sempre vem acompanhada de novas dúvidas, novos mistérios e aquela sensação de que ainda estamos vendo só a superfície de algo muito maior.

E isso não é um defeito. Muito pelo contrário.

Já falei sobre Gachiakuta aqui no blog antes, destacando vários pontos positivos e como a obra conseguiu mexer com a forma como muita gente passou a enxergar animes e mangás. O impacto não vem apenas do traço diferente ou da estética suja e agressiva, mas da maneira como o mundo é construído. Tudo ali parece quebrado, descartado, jogado fora, e ainda assim vivo. O mangá já carregava esse peso desde o início, e a adaptação em anime só reforça o quanto essa história sabe usar o desconforto como linguagem.

O universo de Gachiakuta não se explica de imediato, e talvez nunca se explique por completo. Ele se revela aos poucos, em fragmentos, quase como se o espectador estivesse juntando restos, pedaços de informação espalhados pelo caminho. Existe um prazer estranho nisso, em não entender tudo, em ter que parar e pensar, em levantar teorias que talvez nunca sejam confirmadas. Em tempos em que muitas obras parecem ter medo do silêncio e da dúvida, Gachiakuta aposta justamente nisso.

Os mistérios não estão só no funcionamento do mundo ou nos poderes que surgem, mas também nos personagens. Eles carregam marcas, traumas e contradições que não são explicadas em longos discursos. Muitas coisas ficam subentendidas, ditas no olhar, no jeito de agir, no silêncio. É uma narrativa que confia em quem está do outro lado da tela, que entende que nem tudo precisa ser explicado para ser sentido.

E talvez seja por isso que Gachiakuta funcione tão bem. Porque ele não tenta ser confortável. Ele não quer agradar todo mundo, nem ser fácil de consumir. É uma obra que incomoda, provoca e, às vezes, até cansa. Mas é um cansaço bom, daquele que vem quando a história fica na cabeça depois que o episódio termina.

Existe algo muito honesto em uma obra que aceita não ter todas as respostas prontas. Gachiakuta parece entender que o mistério também faz parte da experiência humana, que nem tudo na vida se resolve de forma clara ou justa. Às vezes, a gente só segue em frente carregando perguntas, tentando dar sentido ao que sobrou.

No fim, assistir a Gachiakuta é isso: caminhar por um mundo feito de restos, tentando montar algum significado a partir do que foi descartado. E talvez seja exatamente por isso que a obra diga tanto sobre nós. Porque, de certa forma, todos nós também estamos tentando entender quem somos a partir dos pedaços que ficaram pelo caminho.

23 de jan. de 2026

Percy Jackson é bom demais


Quando anunciaram a nova série de Percy Jackson pela Disney, confesso que minha primeira reação não foi empolgação, foi desconfiança. Os filmes ainda pesam na memória de quem leu os livros. Não porque eram totalmente ilegíveis, mas porque pareciam não entender o que Percy Jackson realmente era. Eles envelheceram os personagens, simplificaram conflitos e transformaram uma jornada de amadurecimento em algo genérico, apressado e vazio de sentido.

A série chega como quem pede desculpa sem dizer nada. E talvez o maior acerto esteja justamente aí.

Desde a primeira temporada, que adapta o livro: O Ladrão de Raios, fica claro que agora existe tempo. Tempo para os personagens respirarem, para os laços se formarem e para o mundo mitológico não parecer apenas um pano de fundo cheio de efeitos. Diferente do filme, que corre para chegar ao final, a série entende que a graça da história está no caminho, nas dúvidas, nos erros e no fato de Percy não saber exatamente quem ele é ou onde se encaixa.

Um ponto que chama atenção é como a série se aproxima muito mais do espírito do livro, mesmo quando muda coisas. A essência está ali: o humor meio torto, a sensação constante de perigo, a ideia de que crescer também é lidar com deuses falhos e adultos que erram. Ao mesmo tempo, a narrativa televisiva permite algo que o livro, por ser em primeira pessoa, não faz tanto: sair da cabeça do Percy.

Na série, não acompanhamos apenas o que ele sente ou pensa. Vemos Annabeth como alguém que carrega expectativas, frustrações e uma inteligência que não é só “a garota inteligente do grupo”. Grover deixa de ser apenas o alívio cômico e ganha profundidade emocional, conflitos próprios e um senso de responsabilidade que pesa. Até personagens secundários passam a ter mais espaço, mais intenção, mais história. Eles não estão ali apenas para cumprir função de roteiro.

A segunda temporada, adaptando O Mar de Monstros, aprofunda ainda mais isso. Os conflitos deixam de ser apenas externos. Não é só derrotar monstros ou impedir o fim do mundo, mas lidar com inseguranças, com a sensação de não ser suficiente, com a comparação constante. A série entende que Percy Jackson nunca foi apenas sobre mitologia grega, mas sobre crescer se sentindo deslocado, confuso e pressionado a ser algo que você ainda não sabe se consegue ser.

Comparando com os filmes, a diferença é quase injusta. Onde os filmes cortavam personagens, simplificavam relações e mudavam motivações inteiras, a série faz o caminho oposto. Ela confia no material original e no público. Não tenta apressar tudo, nem transformar Percy em um herói pronto. Ele continua errando, duvidando, tropeçando, como sempre foi nos livros.

Claro, nem tudo é idêntico às páginas. Algumas escolhas narrativas são diferentes, cenas são reorganizadas, certos momentos ganham outro peso. Mas, ao contrário dos filmes, essas mudanças parecem pensadas para expandir, não para apagar. Elas funcionam como ajustes naturais de uma história que agora entende o meio em que está sendo contada.

Talvez o maior mérito da série seja esse: ela não tenta consertar Percy Jackson, porque ele nunca esteve quebrado. Ela apenas oferece o espaço certo para que a história seja contada com cuidado.

No fim, assistir à série dá a sensação de que Percy finalmente encontrou um lar fora dos livros. Não perfeito, não intocável, mas honesto. E às vezes é só isso que uma boa adaptação precisa ser.

18 de jan. de 2026

Stranger Things não soube termina



O final de Stranger Things não foi exatamente ruim, mas também não foi o que muita gente esperava, e talvez seja aí que tudo começou a dar errado.


Durante anos, a série foi tratada como mais do que uma história. Ela virou memória afetiva, trilha sonora da adolescência tardia de muita gente, refúgio em tempos estranhos. Cada temporada vinha carregada de nostalgia, mistério e a promessa silenciosa de que tudo aquilo levaria a um encerramento grandioso, inesquecível, quase histórico. 

A internet ajudou a inflar isso. Teorias, expectativas, comparações, apostas emocionais. O final precisava ser perfeito, e quando algo precisa ser perfeito, quase sempre já nasce condenado.


Quando a série terminou, o que se viu foi uma divisão clara. De um lado, pessoas satisfeitas, emocionadas, gratas pela jornada. Do outro, gente frustrada, decepcionada, sentindo que algo faltou. Não necessariamente um evento específico, mas um impacto. Um risco maior, um fechamento que doesse mais.


Talvez o problema não tenha sido o final em si, mas o que projetamos nele. Stranger Things sempre flertou com o conforto, mesmo quando lidava com o horror, havia ali uma zona segura. Personagens queridos, trilhas conhecidas, referências que abraçavam o espectador. E no fim, a série permaneceu fiel a isso, não traiu sua essência, só que, para muitos, isso já não bastava.


Existe uma expectativa estranha de que finais precisam ser disruptivos, chocantes, quase traumáticos, para serem bons, se não desmontam tudo, se não ferem profundamente, parecem insuficientes. Mas também existe o outro lado. Às vezes, encerrar é apenas isso: fechar um ciclo sem destruir o que foi construído.


A internet, como sempre, amplificou tudo, gostar virou sinal de ingenuidade. Não gostar virou sinônimo de inteligência crítica. E no meio disso, se perdeu algo simples: nem todo final precisa agradar a todos. Algumas histórias terminam do jeito que conseguem, não do jeito que prometemos a nós mesmos que elas terminariam.


Talvez Stranger Things tenha terminado exatamente como viveu. Entre o medo e o afeto. Entre o caos e a familiaridade. E talvez a frustração venha do fato de que crescemos enquanto a série crescia, e esperávamos que ela acompanhasse nossas dores adultas com a mesma intensidade.


No fim, não é só sobre uma série. É sobre expectativa. Sobre apego. Sobre o momento em que percebemos que certas histórias significaram mais para nós do que para elas mesmas.


E isso dói um pouco. Mas também diz muito sobre quem somos agora.

6 de jan. de 2026

Pessoas transitórias


Talvez este seja o texto mais reflexivo que eu já escrevi. E, sem dúvida, um dos mais sinceros. A ponto de me fazer pensar se o nome do blog ainda faz sentido, ou se isso aqui já é o começo de uma nova fase, uma nova forma de pensar e escrever.


Mas afinal, o que é uma pessoa transitória?


Eu nem sei se esse termo existe, pesquisando hoje nesse grande oráculo moderno chamado TikTok, cheio de curiosidade rasa e certezas absolutas sim, foi ironia, vi muito sobre pessoas temporárias, pessoas passageiras, ainda assim, senti vontade de nomear algo diferente, talvez inventar um conceito, talvez apenas tentar me entender.


Para isso, preciso contar um pouco da minha história.


Estou em relacionamentos desde os 16 anos. Hoje tenho 28, quase chegando aos 29. Passei boa parte da minha vida adulta acompanhado, sempre saindo de um relacionamento e entrando em outro, nunca foram relações curtas. nada de “coisas de meses” eu sempre fui o cara que namora por anos.


Meu primeiro relacionamento foi bem intenso, eu namorei, noivei e casei, casamento de verdade. com cartório, igreja, gente jogando arroz, tudo muito bonito, quase como um filme da Disney. Dois anos depois veio o fim, uma traição da parte dela, algo doloroso, devastador, mas sobrevivi. Meses depois descobri que ela estava namorando outro e vivendo algo que comigo nunca aconteceu, feliz a vida seguiu para ela.


O segundo relacionamento durou três meses. Até hoje não sei se posso chamar de namoro, foi simples, genérico, quase raso, depois que terminou, ela conseguiu um emprego melhor do que aquele que eu havia ajudado a conquistar, entrou na faculdade, viajou para fora do Brasil. 


O terceiro relacionamento durou três anos e sete meses. E olha um tempo considerável, quando acabou, ela conseguiu não apenas um, mas dois empregos. Cresceu pessoalmente, profissionalmente, espiritualmente e emocionalmente. Não uma evolução perfeita, mas honesta, do tipo que respeita as próprias dores.


O último relacionamento foi curto, mas forte demais sabe. Nos conhecemos no corredor da faculdade. viramos amigos e quando percebi, estava completamente apaixonado, eu pulei de cabeça, me entreguei. Fiz mais do que podia e mais do que devia, mas nenhuma entrega sustenta um amor que não é recíproco. O fim veio claro e eu fui trocado.


Não escrevo isso para me vitimizar. Tenho consciência dos meus erros e sei que em algumas histórias fui vilão, que machuquei e disse coisas que não deveria ter dito, este texto não é um julgamento da minha vida, mas uma constatação. eu sempre estive em um relacionamento e agora, pela primeira vez, me vejo sozinho, e claro sendo sincero, estou odiando.


Todos dizem que é necessário, que vou aprender a gostar, a me conhecer melhor., a minha psicóloga diz isso, conhecidos dizem isso, pessoas bem-intencionadas dizem isso. No entanto a verdade é que estou odiando cada minuto, cada dia pesa e cada silêncio incomoda.


E talvez seja por isso que comecei a me enxergar como uma pessoa transitória.


Alguém que passa e que ensina algo, que ajuda o outro a se entender, a crescer, a se preparar para o mundo, e quando vai embora, ou é retirado da vida de alguém, a pessoa floresce, evolui, segue em frente.


Eu poderia sentir raiva disso, mágoa, inveja. Mas, estranhamente, sinto orgulho, saber que, mesmo sendo o vilão de algumas histórias, ou o erro necessário, eu ajudei alguém a dar passos adiante diz algo sobre mim.


Ser uma pessoa transitória não é só perda, não é apenas fracasso.


Mas confesso que, pelo menos uma vez, eu queria que alguém ficasse, queria aprender a enxergar melhor os sinais, ser mais profundo, oferecer algo que não seja apenas passagem. Algo que seja permanência.


Como escreveu Carl Jung, “a solidão não vem de estar só, mas de não ser compreendido”. Talvez o que mais doa não seja a ausência de alguém ao meu lado, mas a sensação de nunca ter sido plenamente entendido enquanto eu ainda estava ali.


No fim das contas, talvez isso não tenha sido um texto reflexivo.

Talvez tenha sido só um desabafo mesmo.

E está tudo bem.

4 de jan. de 2026

Ano novo, mas a vida é a mesma



2026 acabou de chegar. Mais um ano começa, trazendo com ele a sensação de que algo precisa mudar. As pessoas costumam acreditar que a virada do calendário carrega novas promessas: novos desafios, novas vivências, novas experiências. E eu confesso que também gosto de acreditar nisso, nem que seja por um instante.


Mas a verdade é que a vida não recomeça junto com o ano. Ela continua. Acorda no dia seguinte como sempre acordou. Não são apenas os boletos que seguem existindo depois da virada; os conflitos internos, as dúvidas e as batalhas silenciosas também permanecem. Ainda há muito sendo vivido agora, mesmo quando a gente finge que tudo começa do zero.


O ano virou, mas a luta contra o meu eu interior continua. Meu id ainda precisa ser contido em alguns momentos, enquanto meu superego não pode agir como se tudo fosse impulsividade ou cobrança excessiva. Existe um espaço frágil entre querer demais e se exigir além do limite; e é exatamente ali que eu costumo me perder.


Tenho aprendido que preciso enxergar meus erros e falhas, não para me punir, mas para não cair outra vez nos mesmos abismos. Ao mesmo tempo, preciso aprender a me cobrar menos. Como minha psicóloga costuma me lembrar e sou muito grato por estar em terapia a compaixão também precisa ser direcionada para dentro. Reconhecer os avanços, por menores que pareçam, é uma forma de continuar em pé.


Então, sim, o ano começou. Mas a vida é a mesma vida: imperfeita, contínua e, às vezes, cansativa. Ainda assim, ela precisa ser vivida. Não existe atalho para isso. Como escreveu Clarice Lispector, “viver ultrapassa todo entendimento”. Talvez seja exatamente por isso que seguimos tentando, mesmo sem compreender tudo.


Pode parecer uma reflexão melancólica. Talvez seja mesmo. Mas é sincera. E, às vezes, tudo o que a gente precisa no início de um novo ano é isso: dizer em voz baixa aquilo que estava pesado demais para continuar guardando.