31 de ago. de 2026

Até onde GTA 6 vale a pena jogar?

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Eu assisti ao último trailer de GTA 6 e, pela primeira vez, não fiquei pensando apenas se o jogo vai ser bom. Na verdade, olhando para tudo aquilo que a Rockstar mostrou, parece até difícil imaginar que o jogo não será, no mínimo, uma experiência impressionante. O que me veio à cabeça foi uma pergunta um pouco diferente: até onde vale a pena jogar GTA 6?

Pode parecer uma pergunta estranha para um jogo que ainda nem foi lançado, mas acho que ela faz bastante sentido. GTA 6 parece ter tudo aquilo que esperamos de um grande jogo da Rockstar: um mundo gigantesco, personagens com personalidade, uma quantidade absurda de detalhes e uma cidade que parece existir independentemente do jogador. É justamente por isso que fiquei pensando não sobre o que o jogo vai oferecer, mas sobre quanto disso realmente vai continuar sendo interessante depois que a novidade passar.

 

Carregar o nome "GTA" não é fácil, e eu acho que a cobrança em cima disso deve ser no mínimo absurda, não é à toa que estamos falando de um jogo que tem diferença de 13 anos do seu antecessor, quantas pessoas cresceram esperando um novo jogo e quantas expectativas estão sendo colocadas em cima disso, e olha, a Rockstar já sabe fazer mundos abertos. Isso não é mais uma surpresa.

 

Desde GTA III, a série vem construindo essa ideia de que podemos entrar em uma cidade e simplesmente fazer o que quisermos. Em GTA 5, isso chegou a um nível em que Los Santos quase parecia um personagem por conta própria. Agora, com GTA 6, a impressão é que a Rockstar quer levar essa filosofia ainda mais longe.

 

Vice City parece viva de uma maneira impressionante. Há pessoas circulando, situações acontecendo ao redor do jogador, diferentes ambientes, atividades e pequenos detalhes que provavelmente nem vamos perceber durante as primeiras horas. É o tipo de coisa que faz a gente olhar para o trailer e pensar em quantas coisas ainda devem existir naquele mundo que sequer foram mostradas. Só que existe uma diferença importante entre um mundo cheio de coisas e um mundo que realmente consegue nos fazer querer continuar nele. E essa diferença talvez seja o maior desafio de GTA 6.

 

Eu gosto de mundos abertos justamente pela liberdade que eles oferecem. Existe algo muito agradável em terminar uma missão e simplesmente pegar um carro, escolher uma direção qualquer e sair dirigindo sem saber exatamente onde você vai parar. Às vezes encontramos alguma coisa interessante, às vezes não encontramos absolutamente nada, e ainda assim aquele passeio faz parte da experiência, por isso até hoje eu abro GTA 5 só pra passar tempo andando de carro, mas eu sinto que pode ter um problema nessa liberdade, pois quando essa liberdade começa a ser substituída pela obrigação de fazer tudo.

 

No começo de um jogo enorme, abrir o mapa e encontrar dezenas de possibilidades é empolgante. Você quer conhecer tudo, visitar todos os lugares e descobrir o que existe em cada canto. Depois de algumas dezenas de horas, porém, aquela mesma quantidade de conteúdo pode começar a parecer uma lista de tarefas.

É nesse momento que um jogo deixa de ser uma experiência e começa a parecer trabalho.

E eu espero que GTA 6 saiba evitar isso.

 

Existe uma coisa na indústria dos jogos que sempre me chamou atenção: a maneira como a duração parece ter se transformado em uma espécie de qualidade. Quanto maior o jogo, aparentemente melhor. Se uma campanha dura 30 horas, alguém pergunta por que não dura 50. Se dura 50, alguém pergunta por que não dura 100.

Eu não sei se quero isso para GTA 6.

 

Talvez eu prefira uma campanha de 50 horas em que quase tudo tenha algum significado do que uma campanha de 100 horas criada apenas para justificar o tamanho do mapa. Quero terminar a história lembrando dos personagens, das missões e daqueles momentos que fazem um jogo permanecer na memória por muito tempo, porque de certa forma foi assim que GTA 5 me ganhou.


Uma das coisas que mais me interessaram no que a Rockstar mostrou foi a relação entre Jason e Lucia. GTA V tinha três protagonistas e funcionava muito bem justamente por explorar personalidades completamente diferentes. Michael, Franklin e Trevor tinham histórias próprias, e boa parte da experiência vinha de observar como aquelas três pessoas tão diferentes se relacionavam.

 

Já no 6, a proposta parece mais íntima. Jason e Lucia estão ligados não apenas pela história, mas pela própria relação entre eles. Existe uma parceria, uma confiança e também uma espécie de dependência entre os dois que pode acabar sendo muito mais importante para a experiência do que qualquer atividade secundária espalhada pelo mapa.

 

No final das contas, nós não lembramos de um jogo apenas porque ele tinha um mapa enorme. Lembramos das histórias que aconteceram dentro daquele mapa. Eu posso esquecer uma rua específica de um jogo que terminei há dez anos, mas provavelmente ainda consigo lembrar de um personagem ou de uma missão que me marcou.

 

Agora uma coisa que também me vem a mente agora é: Eu não quero viver meses jogando esse jogo, e é curioso porque, ao mesmo tempo em que quero que GTA 6 seja enorme, também não quero que ele seja interminável, quero que exista coisa para descobrir. Quero entrar em uma rua qualquer e encontrar alguma situação que eu não esperava, quero dirigir sem destino e, de vez em quando, acabar encontrando alguma coisa que faça aquele passeio valer a pena. Mas também quero que o jogo saiba quando parar.

 

Não quero que cada atividade pareça uma obrigação. Não quero terminar uma missão e imediatamente receber outras cinco tarefas apenas porque existe um mapa gigantesco que precisa ser preenchido. Quero ter a liberdade de ignorar tudo isso.

E talvez essa seja uma das coisas mais importantes que um mundo aberto pode oferecer: a liberdade de não fazer nada.

 

Quando eu já tiver conhecido Vice City, dirigido pelas mesmas estradas dezenas de vezes e entendido como aquele mundo funciona, eu ainda vou querer continuar ali? Essa, para mim, é a pergunta que GTA 6 realmente precisa responder.

Porque eu não quero apenas um jogo gigantesco. Quero um mundo que consiga me fazer esquecer, por algumas horas, que estou jogando um jogo. E quando finalmente chegar a hora de desligar o console, quero ter aquela sensação rara de que poderia continuar ali por mais algumas horas, mas não preciso.

 

Talvez seja justamente aí que esteja a diferença entre um jogo que simplesmente tem muito conteúdo e um jogo que realmente vale a pena jogar.

28 de ago. de 2026

Qifrey é o verdadeiro vilão de Witch Hat Atelier



Terminei Witch Hat Atelier e, desde então, uma ideia não sai da minha cabeça:

Qifrey é o verdadeiro vilão dessa história.

Talvez seja uma afirmação exagerada e eu só esteja sendo maluco já que não li o mangá, talvez eu esteja interpretando tudo errado. Mas quanto mais penso no que assisti, mais essa possibilidade parece fazer sentido.

E acho que o mais interessante em Witch Hat Atelier é justamente isso. É uma história que, à primeira vista, parece muito simples. Existe uma magia proibida, existem pessoas que conhecem essa magia e existem aqueles que tentam impedir que esse conhecimento se espalhe.

Só que, quando você para para olhar com um pouco mais de atenção, talvez a pergunta não seja "quem está certo?", mas sim:

Quem decidiu que esse conhecimento deveria ser proibido?

Os chapéus com aba são apresentados como aqueles que ultrapassam os limites estabelecidos. São perigosos. São pessoas que utilizam uma magia que não deveria existir, que mexem com coisas que foram determinadas como proibidas, só por fazer a mesma magia só que de maneira diferente, ou potencializar no corpo por exemplo.

Mas... por quê?

Por que são realmente malignos?

Ou por que estão tentando devolver ao mundo um conhecimento que um dia pertenceu a todos?

É aí que Qifrey começa a me incomodar.

Ele é um personagem extremamente carismático e trás tudo que um personagem confiável tem que ser: É gentil, inteligente, paciente e, principalmente, parece genuinamente preocupado com Coco e com os outras aprendizes. É muito fácil gostar dele.

Talvez fácil demais.

Porque Qifrey sabe muito mais do que conta.

Ele conhece a história por trás da magia proibida. Conhece os chapéus com aba. Conhece os perigos daquele mundo. E, ainda assim, existe uma coisa que parece cada vez mais clara: ele não está simplesmente tentando proteger o mundo.

Ele também está tentando proteger os próprios interesses.

E isso muda completamente a maneira como eu enxergo o personagem, principalmente depois do episódio que ele apaga as memorias do velho lá.

Porque existe uma diferença enorme entre impedir alguém de usar um conhecimento porque esse conhecimento é perigoso e impedir alguém de usar esse conhecimento porque você tem medo do que pode acontecer quando ele deixar de estar sob seu controle.

E talvez seja justamente essa segunda opção que esteja acontecendo.

Os chapéus com aba podem ser criminosos. Podem ser pessoas perigosas, podem realmente colocar vidas em risco.

Mas também podem ser pessoas que olharam para um mundo onde o conhecimento mágico foi cuidadosamente trancado atrás de regras e decidiram que aquilo não era aceitável, OK eu sei que eles também não se ajudam, causando todo tipo de caos possível e fazendo aquilo horrível com o menino no final do ultimo episódio da primeira temporada

E isso me faz pensar em uma coisa que Witch Hat Atelier parece perguntar o tempo inteiro:

Quem tem o direito de decidir o que as outras pessoas podem conhecer?

Porque conhecimento, quando é proibido, deixa de ser apenas conhecimento.

Ele vira poder.

E quem controla o conhecimento passa a controlar quem pode ter esse poder.

É impossível não olhar para Qifrey sob essa perspectiva.

Ele ensina magia.

Ele transmite conhecimento.

Ele decide o que Coco pode aprender e o que ela ainda não está preparada para saber.

E, ao mesmo tempo, ele faz parte de uma estrutura que determina quais conhecimentos podem existir e quais devem desaparecer.

A ironia é enorme.

Qifrey parece estar libertando Coco através do conhecimento, enquanto, ao mesmo tempo, participa de um sistema que limita esse mesmo conhecimento.

Talvez seja por isso que os chapéus com aba me chamem tanto a atenção.

Porque eles podem representar justamente o oposto.

Eles não necessariamente querem destruir a magia só os outros bruxos kkkk

Talvez queiram devolvê-la ao mundo.

E isso é muito mais interessante do que simplesmente dizer que eles são os vilões.

É claro que existe um problema enorme nisso tudo: conhecimento também pode ser perigoso.

Uma magia capaz de curar alguém pode também matar.

Uma magia capaz de transformar alguma coisa pode destruir outra.

E talvez as regras existam por uma razão.

Mas é aí que a história fica realmente interessante.

Porque uma boa intenção não transforma automaticamente uma proibição em algo justo.

E uma revolução também não transforma automaticamente quem está revolucionando em herói.

Talvez os chapéus com aba estejam errados em algumas coisas.

Talvez Qifrey esteja certo em outras.

Talvez os dois lados estejam tentando controlar o mesmo conhecimento por motivos diferentes.

E talvez seja justamente isso que faça Qifrey ser tão assustador.

Ele não precisa ser um vilão que quer destruir o mundo.

Ele pode ser algo muito pior:

Alguém que acredita estar fazendo a coisa certa.

E talvez o maior egoísmo dele esteja justamente aí.

Qifrey quer proteger as pessoas, mas também quer controlar o que elas podem saber, quer impedir que determinados conhecimentos voltem a existir porque sabe o que pode acontecer se eles forem recuperados.

Mas também existe uma questão pessoal nisso.

Ele tem seus próprios motivos.

Suas próprias feridas.

Sua própria obsessão.

E, quando alguém toma decisões sobre o futuro de todo um mundo baseado nas próprias dores, talvez seja impossível continuar chamando isso simplesmente de proteção.

Talvez seja vingança.

Talvez seja medo.

Talvez seja egoísmo.

Ou talvez seja tudo isso ao mesmo tempo.

E é por isso que terminei o anime com essa sensação estranha.

Eu não consigo simplesmente olhar para os chapéus com aba e pensar "eles são os vilões".

Porque, quanto mais a história mostra sobre aquele mundo, mais eu começo a questionar quem realmente está mantendo as pessoas seguras e quem está apenas mantendo as pessoas ignorantes.

E talvez essa seja a grande genialidade do anime 

A história não parece interessada em entregar respostas fáceis.

Ela fala sobre magia, mas talvez esteja falando muito mais sobre conhecimento.

Sobre quem pode aprender.

Sobre quem pode ensinar.

Sobre quem decide o que deve ser esquecido.

E sobre o que acontece quando alguém olha para uma regra e pergunta:

"Mas por quê?"

Coco fez essa pergunta sem querer.

Os chapéus com aba fizeram essa pergunta conscientemente.

E Qifrey talvez tenha passado a vida inteira tentando impedir que essa pergunta fosse respondida.

Por isso, depois de terminar o anime, uma coisa continua martelando na minha cabeça:

E se Qifrey não estiver tentando impedir os vilões?

E se ele estiver tentando impedir que o mundo descubra que talvez os vilões nunca tenham sido os verdadeiros vilões?

Eu não sei se Qifrey é, de fato, o grande vilão de Witch Hat Atelier.

Mas, sinceramente?

Depois desse anime, eu já não consigo olhar para ele do mesmo jeito.

18 de ago. de 2026

Separados pelas Estrelas é muito mais do que uma animação de romance


Existem histórias de amor que falam sobre encontros. Outras falam sobre desencontros, algumas, porém, parecem querer discutir algo ainda mais difícil: e se duas pessoas realmente destinadas uma à outra simplesmente não pudessem ficar juntas?

Eu assisti a nova animação da Netflix, ela parte de uma ideia que, à primeira vista, parece familiar. O amor impossível, o destino, duas pessoas ligadas por algo maior do que elas mesmas. É um conceito que o cinema, a literatura e, principalmente, as animações já exploraram inúmeras vezes, ainda assim, existe algo interessante na maneira como o filme transforma essa premissa em uma reflexão sobre aquilo que talvez seja uma das maiores contradições do amor: amar alguém nem sempre significa poder permanecer com essa pessoa.

E talvez seja justamente aí que o filme encontre sua maior força.

Estamos acostumados a histórias em que o amor é apresentado como uma espécie de prêmio. Depois de todos os obstáculos, os personagens finalmente ficam juntos e o mundo parece entrar nos eixos. É uma fórmula bonita, mas também confortável. Separados pelas Estrelas parece interessado em fazer uma pergunta menos confortável: será que todo amor precisa terminar em permanência para ter sido verdadeiro?

A animação brinca com essa ideia de destino de uma maneira bastante interessante. Se existem forças maiores determinando os caminhos das pessoas, até onde vão nossas escolhas? Somos realmente livres para escolher quem amar, ou algumas pessoas simplesmente atravessam nossa vida porque precisavam atravessá-la?

Talvez o amor seja justamente essa contradição. Nós queremos acreditar que escolhemos quem amamos, mas, ao mesmo tempo, quando encontramos alguém que realmente nos transforma, é difícil acreditar que aquele encontro tenha sido apenas uma coincidência.

E o filme trabalha bem com essa sensação.

Há algo quase melancólico na ideia de duas pessoas que podem se amar profundamente e, ainda assim, não conseguirem vencer aquilo que existe ao redor delas. Não porque o sentimento seja insuficiente, mas porque a vida nem sempre recompensa aquilo que sentimos.

Essa é uma das coisas que mais gosto na proposta do filme: ele não trata o amor apenas como conquista. Trata também como experiência.

Algumas pessoas chegam às nossas vidas para ficar. Outras chegam para nos modificar. E existem aquelas que permanecem conosco justamente porque, mesmo depois de partirem, deixaram alguma coisa que não conseguimos abandonar.

Nesse sentido, o filme fala menos sobre encontrar "a pessoa certa" e mais sobre compreender o significado de encontrar alguém.

E isso é uma diferença importante.

A animação também merece reconhecimento por tentar fazer algo novo em um momento em que parece que já vimos quase tudo. Histórias de amor já foram contadas de todas as formas possíveis. Histórias sobre destino também. Viagens, mundos fantásticos, encontros impossíveis e romances proibidos fazem parte da própria história da animação.

O desafio, então, não é necessariamente inventar um conceito que nunca existiu. Isso talvez seja impossível. O verdadeiro desafio é pegar ideias antigas e reorganizá-las de uma maneira que ainda consiga despertar alguma coisa no espectador.

E o filme consegue fazer isso em alguns momentos justamente porque utiliza a fantasia como ferramenta para falar de sentimentos bastante humanos.

As estrelas, o destino e toda a construção fantástica não existem apenas para criar um universo bonito. Eles funcionam como metáforas para aquilo que não conseguimos controlar. Há coisas na vida que estão além da nossa vontade. Podemos lutar, insistir, esperar e desejar, mas nem sempre conseguimos mudar o caminho que se apresenta diante de nós.

E aceitar isso talvez seja uma das coisas mais difíceis de aprender.

O problema é que nem tudo funciona perfeitamente.

Apesar de possuir uma proposta interessante e de conseguir fugir um pouco da estrutura tradicional das histórias românticas, o filme também apresenta momentos em que parece confiar demais na própria ideia. Algumas situações poderiam ter sido melhor desenvolvidas, principalmente quando pensamos na relação entre os personagens e na profundidade de determinadas escolhas.

Existe uma diferença entre contar uma história simples e contar uma história superficial. Muitas vezes o filme encontra a simplicidade que procura, mas em alguns momentos acaba deixando certas questões importantes apenas na superfície.

Ainda assim, talvez seu maior mérito esteja justamente naquilo que fica depois dos créditos.

Porque, no fim, a pergunta não é apenas "eles vão ficar juntos?".

A pergunta é: "o que significa amar alguém quando ficar junto não é uma possibilidade?"

E essa pergunta é muito mais interessante.

Talvez porque amar seja, em certa medida, aceitar que não temos controle sobre tudo. Não podemos obrigar alguém a permanecer. Não podemos determinar o momento em que uma pessoa vai entrar em nossa vida. Não podemos garantir que um relacionamento vai durar para sempre.

Podemos apenas viver aquilo enquanto ele existe.

E talvez seja isso que as estrelas do título representem tão bem. Elas estão distantes, parecem próximas quando olhamos para o céu, mas existe uma imensidão entre elas. Ainda assim, continuamos olhando.

Porque algumas distâncias não diminuem a importância de um encontro.

Claro que não é uma obra perfeita e provavelmente não pretende reinventar completamente as histórias de amor. Mas consegue algo talvez mais importante: pegar elementos que já conhecemos e utilizá-los para falar de uma coisa que continua sendo impossível de explicar completamente.

O amor.

No final, talvez algumas pessoas sejam como estrelas. A gente não consegue alcançá-las, não consegue segurá-las e, às vezes, nem consegue permanecer perto delas. Mas isso não significa que sua existência tenha sido inútil.

Algumas pessoas passam pela nossa vida para nos ensinar que amar também pode significar deixar ir.

E talvez, entre todas as histórias sobre destino que já foram contadas, essa seja uma das mais bonitas: entender que nem todo encontro precisa durar para sempre para ter valido a pena.

Às vezes, algumas pessoas simplesmente estão separadas pelas estrelas.

16 de ago. de 2026

E li Academia Arcana de Elise Kova e olha...



Existe algo curioso nas histórias de fantasia sobre academias de magia. Talvez porque, depois de tantos livros, filmes e séries, seja difícil imaginar uma escola de magia sem imediatamente lembrar de Harry Potter, o que é de longe uma obra prima e deveria sequer ser exemplo disso, mas que tem já entranhado no universo pop como alguém marcante. E toda essa ideia de jovens aprendendo a dominar poderes, descobrindo segredos, fazendo amizades e enfrentando perigos dentro de uma instituição mágica já se tornou quase um subgênero próprio.

E por causa disso que Academia Arcana me chamou atenção. 

O livro não parece interessado apenas em repetir a fórmula que já conhecemos, ele tenta encontrar seu próprio caminho dentro dela, misturando elementos tradicionais da fantasia com uma abordagem mais adulta e, em alguns momentos, bastante diferente daquilo que normalmente encontramos nesse tipo de história.

E talvez o mais interessante seja justamente perceber que o livro funciona melhor quando tenta ser diferente, já que toda magia gira em torno de cartas de tarot, trazendo uma ideia inovadora.

O livro utiliza vários elementos que não são exatamente novo. Temos: magia, uma instituição dedicada ao seu ensino, personagens descobrindo seus poderes, relações entre os estudantes e os inevitáveis conflitos que surgem quando pessoas diferentes são colocadas dentro do mesmo ambiente.

A academia deixa de ser apenas um cenário bonito para colocar personagens mágicos juntos. Ela funciona como parte importante da experiência dos personagens, permitindo que a autora explore não apenas a magia, mas também as relações de poder, as inseguranças, os desejos e as consequências de viver em um mundo onde aquilo que para nós seria impossível é simplesmente parte da realidade.

Em muitas histórias do gênero, a magia existe simplesmente porque é necessário que exista. O leitor aceita suas regras e segue em frente, já nesse livro existe uma tentativa maior de fazer com que esse universo tenha suas próprias particularidades.

Nem sempre funciona perfeitamente, mas é justamente essa tentativa que torna o livro interessante.

Por outro lado, existe uma armadilha quando um autor tenta fugir demais do que já conhece.

Às vezes, a obra parece tão preocupada em mostrar que não é "mais uma fantasia" que acaba se afastando justamente daquilo que poderia torná-la mais consistente.

O livro apresenta boas ideias, mas nem todas recebem o desenvolvimento que mereciam. Algumas parecem surgir com grande potencial e depois acabam ficando em segundo plano, enquanto outras recebem uma atenção que nem sempre parece proporcional à sua importância para a história.

É como se existisse uma quantidade enorme de ideias interessantes dentro do livro, mas nem sempre houvesse espaço suficiente para que todas respirassem. E isso acaba afetando principalmente o desenvolvimento dos personagens.

Porque uma boa fantasia não precisa apenas de um mundo interessante. Ela precisa fazer com que o leitor se importe com as pessoas que vivem nele.

E essa é uma das coisas que mais gosto em histórias de fantasia, a magia pode ser maravilhosa, o mundo pode ser gigantesco, podemos ter criaturas, poderes, escolas, reinos e tudo aquilo que a imaginação conseguir criar.

Mas, no fim, queremos saber o que acontece com aquelas pessoas.

Em alguns momentos, o livro até consegue fazer isso muito bem. Existem relações que despertam curiosidade e personagens que conseguem carregar a narrativa justamente porque parecem ter conflitos que vão além daquilo que está acontecendo superficialmente.

Em outros, entretanto, existe uma sensação de que determinados personagens poderiam ter sido muito mais explorados, quando uma história nos mostra uma possibilidade interessante e não a desenvolve completamente, ficamos com aquela sensação de "poderia ter sido melhor". Não necessariamente porque aquilo que recebemos seja ruim, mas porque conseguimos enxergar aquilo que a história poderia ter se tornado.

Mas agora vamos para o porque eu decidi falar sobre esse livro aqui e provavelmente, minha maior crítica ao livro.

Não tenho nenhum problema com histórias de fantasia que tenham romance, erotismo ou personagens adultos vivendo sua sexualidade.

A questão não é essa.

O problema é quando o conteúdo sexual parece existir mais por obrigação do que por necessidade narrativa.

E é exatamente essa sensação que tive com algumas das cenas mais explícitas próximas ao final.

Depois de acompanhar toda uma história de fantasia, personagens, conflitos e construção de mundo, o livro começa a dedicar uma atenção bastante grande a cenas sexuais que, para mim, não acrescentam na mesma proporção à narrativa.

E tem livros que até faz sentindo, você entende o porque dos personagens começarem a se pegar, já que está um certo tempo criando uma situação assim, mas no caso de Academia Arcana, várias vezes isso claramente foi forçado, eu não consegui enxerga essa química entre a nossa protagonista e o grande vilão que o livro tentou pintar boa parte dele, pra chegar no final e dizer "ah ele não é vilão", sendo que no meio do livro eu já tinha entendido isso.

E sabe o problema fica ainda maior porque essas cenas aparecem quando a história já deveria estar caminhando para a resolução de seus conflitos. O ritmo que vinha sendo construído acaba sofrendo uma interrupção justamente quando eu esperava que o livro estivesse concentrado em suas questões mais importantes.

E por favor, não é uma questão de puritanismo.

É uma questão de narrativa.

Se eu estou lendo uma fantasia porque quero conhecer aquele mundo, acompanhar aqueles personagens e descobrir onde toda aquela história vai chegar, quero que cada capítulo tenha algum propósito.

Se uma cena sexual existe, ela precisa me dizer alguma coisa, caso contrário, ela é apenas uma pausa.

E uma pausa totalmente desnecessária.

O livro é bom, a história é boa, tem um mistério que deveria ser solucionado ou pelo menos entregar um gancho interessante pro segundo livro o que é obvio que iria ser escrito, mas o livro se perdeu no final, entregou uma situação chata e eu achei bem fraco como tentaram correr pra explicar as coisas. 

Eu queria saber mais sobre as magias, mas sobre o tarot, saber mais sobre o universo e não ficar lendo cenas de sexo só porque ambos personagens não conseguem segurar o tesão. 

Posso está sendo totalmente chato, mas o livro vacilou nesse quesito, o que me faz perde totalmente interesse em ler o segundo. 

12 de ago. de 2026

Eu li 1984 de George Orwell e olha...



Tem alguns livros que contam uma história. Outros fazem você fechar o livro e ficar olhando para o teto por alguns minutos. 1984 foi exatamente isso para mim.

Eu já sabia que era um clássico e que muita gente usava o termo "Big Brother" por causa dele, mas só depois de ler entendi o peso que esse livro carrega. Não é uma leitura difícil pela escrita. O difícil é perceber que, mesmo tendo sido publicado há tantas décadas, muita coisa ainda soa estranhamente atual.

Na história nos acompanhamos Winston, um homem comum vivendo em uma sociedade onde até os próprios pensamentos podem ser considerados um crime. Tudo é controlado. O passado muda conforme a necessidade do governo, a verdade deixa de existir e a liberdade vira apenas uma palavra sem significado.

O mais interessante é que George Orwell não tenta assustar o leitor com monstros ou guerras intermináveis. O medo nasce das pequenas coisas. De alguém observando seus movimentos. De você começar a duvidar da própria memória. De perceber que, aos poucos, sua individualidade vai desaparecendo.

Durante a leitura eu me peguei pensando em como é fácil abrir mão de certas liberdades quando alguém promete segurança, ordem ou conforto. O livro exagera algumas situações justamente para nos fazer refletir sobre isso. E talvez seja por esse motivo que ele continua sendo tão comentado até hoje.

Não acho que seja um livro que entregue respostas. Pelo contrário, ele deixa perguntas. Até que ponto conseguimos perceber quando estamos sendo manipulados? O que realmente significa liberdade? E, principalmente: quanto da nossa visão de mundo é realmente nossa?

Não é uma leitura leve no sentido da história, em alguns momentos ela chega a ser sufocante. Mas é justamente esse desconforto que faz o livro funcionar tão bem, você termina a última página com a sensação de que leu muito mais do que uma ficção.

No fim, acho que 1984 não ficou famoso apenas por prever algumas coisas ou inspirar debates políticos. Ele continua relevante porque fala sobre algo muito humano: o medo de perder a capacidade de pensar por conta própria, e talvez esse seja o maior alerta que Orwell quis deixar.