29 de set. de 2026

A falta que você me faz

Esse vai ser um post diferente dos que eu costumo escrever aqui, e tudo isso por causa de uma música que eu ouvi recentemente graças ao meu irmão caçula. Meus dois irmãos adoram ouvir música e descobrir novos artistas pelo mundo, enquanto eu já sou mais de curtir os mesmos que sempre escuto, por saber que as músicas são boas. Mas não tem como negar que a criatividade das pessoas sempre me surpreende.

Há pouco mais de dois dias, meu irmão me colocou para ouvir o Tiny Desk de um cantor argentino que, de acordo com ele, iria me surpreender pela forma como o cara sabia compor. Lá fui eu, inocente, achando que iria ouvir algo legal e simples. No entanto, quando terminou, fiquei bastante pensativo sobre algo que está sempre na minha mente.

Já faz alguns anos que perdi meu pai. Não gosto de lembrar o dia, o mês ou sequer o ano, porque isso me faz entender o quanto tempo se passou e como isso acaba me destruindo e fazendo meu dia ser bem ruim. Mas já faz alguns anos, e, desde o momento em que ele partiu, eu não consigo me ver longe dele. Não consigo me enxergar neste mundo sem a sua presença, é louco como, em cada situação por que passo ou vivo, eu me lembro de nossas conversas e busco na minha mente certas lembranças. É como se, mesmo tendo partido, eu ainda tivesse os conselhos dele me guiando na vida, me ajudando a caminhar. Mesmo que ele tenha partido, ele não partiu...

E é muito doida essa ideia de perder alguém. Eu trabalho na área da saúde há uns nove anos e convivo quase diariamente com a ideia da morte, mas a ideia de perder alguém? Sabe, a pessoa estar ali contigo e agora não estar mais? Demorou para a ficha cair sobre isso, demorou para enxergar essa ausência, e agora o que me resta é a saudade. Depois que ouvi a música Niño, do Milo J, eu pensei: "Então é assim que alguém sente a perda?". Ver alguém colocando em palavras e em música o que eu sinto.

Óbvio, eu sei, existem zilhões de músicas que falam sobre a perda, e eu já ouvi muitas delas. Mas quando você escuta uma sem querer, quando é pego de surpresa, isso é algo que mexe com você. A sua mente começa a disparar milhões de pensamentos, disparar milhões de lembranças, de dores, de felicidades... a sua mente só pensa em uma coisa:

Eu sinto falta.

E olha, esse sentimento, a saudade, a falta de alguém que já partiu, é algo que eu não consigo desejar nem para a pessoa que algum dia me fez mal ou que algum dia irá fazer. O medo, o sentimento de impotência, de saber que você não pode fazer nada, absolutamente nada... Você só pode sentir, e sentir calado, porque não há grito no mundo que faça a pessoa voltar. Não há lamentação ou desejo: nada vai trazer a pessoa que você tanto amou de volta. E isso dói, olha como isso dói... Mas é, infelizmente, algo que precisamos passar, algo que precisamos viver. Quer você queira ou não, você vai viver.

Então eu faço esse pedido não só por mim, mas também pelo meus irmãos: abrace, beije, converse, ria com alguém que você ama. Troque, sim, uma noite na rua com seus amigos; troque, sim, uma virada de noite jogando; troque o que for necessário para passar um minutinho a mais com aqueles que você ama. Porque pai e mãe infelizmente não são imortais e, pela lei natural da vida, eles vão antes da gente.

E se você, assim como eu, teve um pai presente, que acompanhou cada passo seu, acompanhe também cada passo dele. Mesmo que seja o último, esteja lá por ele, como ele esteve por você quando você nasceu.

Te amo, pai. A falta que você me faz me dói até hoje.

26 de set. de 2026

Mais um iPhone e a falsa necessidade de ter um




Falar de iPhone hoje em dia é quase tão delicado quanto falar de política, futebol ou religião. É um daqueles assuntos que rapidamente conseguem transformar uma conversa comum em uma discussão na internet, principalmente porque existe uma defesa muito forte da marca por parte de alguns usuários.
 
Parece que, para determinadas pessoas, possuir um iPhone também significa ter que explicar constantemente por que ele é melhor, mais bonito, mais seguro ou simplesmente superior aos outros celulares. Eu mesmo já participei desse outro lado da discussão, porque durante muito tempo fui bastante crítico da Apple. Achava exagerado pagar tão caro em um celular e não entendia muito bem o que justificava aquilo. Depois que comecei a usar um, porém, algumas coisas mudaram na minha percepção.

Meu celular é um Iphone 13 de 2017 e, considerando a quantidade de tempo que passo utilizando um smartphone, ainda fico impressionado com o desempenho que ele consegue entregar. Praticamente tudo que faço durante o dia passa pelo aparelho: comunicação, trabalho, música, vídeos, redes sociais, pesquisas, banco, fotografia e entretenimento tiktok até demais. É uma presença constante na minha rotina. Já tive celulares de outras marcas lançados alguns anos depois que não conseguiram manter a mesma experiência de uso durante tanto tempo e estou falando me marca como Samsung que tive um comprado em 2024. Alguns ficaram lentos, começaram a travar ou apresentaram outros problemas antes mesmo de chegarem à idade que o meu aparelho tem hoje. Isso é apenas a minha experiência, obviamente, e não serve para determinar a qualidade de todas as outras marcas, mas foi suficiente para eu reconhecer que existe mérito na forma como a Apple consegue manter seus aparelhos relevantes durante vários anos.

O que me chama atenção, portanto, não é a existência de um aparelho novo ou o fato de ele ser tecnicamente superior ao anterior, é a maneira como nós, consumidores, passamos a enxergar o aparelho que já possuímos depois que uma nova geração chega ao mercado. Até pouco tempo atrás, aquele celular era suficiente, ele funcionava, atendia às nossas necessidades e provavelmente nem ocupava tanto espaço nos nossos pensamentos. Então surge um novo lançamento e começamos a perceber todas as coisas que o nosso aparelho supostamente não tem, a câmera poderia ser melhor, o processador poderia ser mais rápido, a tela poderia ter uma tecnologia mais recente, a bateria poderia durar mais. O aparelho continua exatamente como estava, mas a nossa percepção sobre ele muda.

Essa lógica fica particularmente evidente quando observamos gerações muito próximas de um mesmo produto, existem, naturalmente, avanços entre elas, seria absurdo dizer o contrário, a tecnologia evolui e seria estranho esperar que uma empresa permanecesse parada durante anos, a questão é que uma evolução técnica não necessariamente representa uma mudança significativa para todos os usuários.
 
Uma câmera melhor pode ser muito importante para quem trabalha com fotografia ou produção audiovisual, enquanto para alguém que utiliza o celular principalmente para conversar, assistir vídeos e usar redes sociais a diferença pode ser praticamente irrelevante. O mesmo vale para processamento, tela, bateria e diversas outras características.

É nesse ponto que começo a pensar sobre a diferença entre desejo e necessidade. Epicuro, filósofo que viveu há mais de dois mil anos, já refletia sobre os diferentes tipos de desejos e sobre como nem tudo aquilo que desejamos é realmente necessário para uma vida satisfatória, a ideia parece distante do nosso cotidiano, mas pode ser aplicada de maneira bastante simples ao consumo atual. Um celular pode ser necessário para uma pessoa trabalhar, estudar, se comunicar ou acessar serviços essenciais, o último modelo disponível no mercado, porém, dificilmente pode ser colocado na mesma categoria apenas pelo fato de ser mais novo.

Isso não significa que exista algo de errado em querer comprá-lo, essa distinção é importante. Uma pessoa pode gostar de tecnologia, ter condições financeiras e simplesmente sentir prazer em adquirir um aparelho novo, não existe nenhuma contradição nisso, o que considero interessante é observar como, muitas vezes, tratamos um desejo como se fosse uma necessidade objetiva, como se a ausência daquele produto estivesse realmente prejudicando a nossa vida.

A sociedade de consumo tem uma relação muito forte com essa transformação. Karl Marx, quando discutiu o chamado fetichismo da mercadoria, apresentou uma ideia que, apesar de estar inserida em um contexto muito mais amplo, ajuda a compreender por que determinados objetos passam a significar muito mais do que aquilo que fazem. Uma mercadoria pode adquirir um valor simbólico que ultrapassa sua função prática. Um relógio deixa de ser apenas um instrumento para marcar as horas; um carro pode carregar ideias de sucesso e posição social; uma roupa pode representar pertencimento. O mesmo acontece com os celulares.

Um iPhone, para muita gente, não é somente um aparelho utilizado para acessar a internet. Ele também pode representar uma determinada ideia de qualidade, modernidade, sofisticação ou sucesso. Isso não significa que todos os usuários tenham essa motivação, mas seria difícil negar que a marca construiu um significado cultural próprio. Existe uma diferença simbólica entre simplesmente possuir um iPhone e possuir o modelo que acabou de ser lançado, em determinados ambientes, essa diferença pode ser percebida até antes que alguém veja o aparelho funcionando.

É interessante observar como isso se relaciona com a forma como apresentamos nossas vidas nas redes sociais, hoje, praticamente qualquer experiência pode ser transformada em conteúdo, seja a viagem, o restaurante, a roupa, o carro, a casa e também o celular passam a fazer parte da imagem que construímos publicamente. Não acho que isso seja necessariamente negativo, compartilhar momentos faz parte da maneira como nos comunicamos atualmente. A questão aparece quando essa exposição começa a influenciar a própria maneira como desejamos as coisas.

É muito fácil descobrir que queremos alguma coisa depois de ver outra pessoa utilizando aquilo, um amigo aparece com um celular novo, um influenciador começa a falar sobre determinada função, uma propaganda aparece algumas vezes e, pouco a pouco, aquele produto começa a ocupar espaço na nossa cabeça. Antes disso, talvez nunca tivéssemos pensado nele, não havia uma falta concreta, então a vontade apareceu depois da exposição.

Erich Fromm, em Ter ou Ser, tratou de uma questão que considero especialmente adequada para esse assunto, e discutia a diferença entre uma existência orientada pelo que possuímos e outra baseada naquilo que somos e vivenciamos. Em uma sociedade tão orientada pelo consumo, os objetos acabam participando da construção da nossa identidade. A forma como nos vestimos, os lugares que frequentamos, aquilo que dirigimos e até o celular que usamos podem funcionar como elementos através dos quais comunicamos alguma coisa sobre nós.

Isso ajuda a explicar por que determinadas escolhas de consumo podem despertar reações tão fortes. Quando um produto passa a fazer parte da identidade de alguém, uma crítica àquele produto pode ser percebida como uma crítica à própria pessoa, a discussão deixa de ser sobre especificações técnicas e passa a envolver orgulho, pertencimento e a necessidade de defender uma escolha que já foi feita.

É difícil ignorar o papel da publicidade nesse processo, mas também acho simplista colocar toda a responsabilidade nas empresas. A Apple certamente sabe construir desejo em torno de seus produtos e possui uma das identidades de marca mais fortes do mercado, mas o fenômeno é maior do que uma estratégia de marketing, empresas lançam produtos, consumidores compram, influenciadores utilizam, usuários compartilham suas experiências e outras pessoas observam. As redes sociais aceleram esse processo porque transformam o consumo individual em algo visível para milhares de pessoas.

Nós mesmos fazemos parte disso.

Essa talvez seja uma das características mais interessantes da sociedade contemporânea: muitas vezes não precisamos que alguém nos diga diretamente o que comprar. Basta observar o que as outras pessoas estão comprando. A comparação funciona de maneira muito mais silenciosa do que uma propaganda tradicional. O celular do outro não precisa ser anunciado como melhor para que comecemos a compará-lo com o nosso.

E essa comparação pode acontecer mesmo quando sabemos racionalmente que não existe motivo real para ela, um aparelho de cinco anos pode continuar cumprindo perfeitamente sua função, mas começar a parecer ultrapassado simplesmente porque existem modelos mais recentes. Tecnicamente, nada mudou naquele aparelho entre ontem e hoje. Socialmente, entretanto, ele adquiriu outra aparência.

Talvez seja por isso que eu ache tão interessante o fato de ainda utilizar um celular de 2017. Existem aparelhos muito melhores atualmente e eu não teria dificuldade alguma em reconhecer isso. O meu não possui as melhores câmeras, o processador mais recente ou todas as funções disponíveis nos modelos atuais. Ainda assim, ele continua atendendo às necessidades para as quais foi comprado. A existência de uma tecnologia melhor não necessariamente torna a tecnologia anterior inútil.

Isso vale para muito mais coisas do que celulares.

Talvez parte do problema esteja justamente na dificuldade que desenvolvemos para aceitar que alguma coisa pode ser suficiente, a sociedade de consumo funciona melhor quando estamos constantemente olhando para a próxima coisa. Sempre existe uma melhoria possível, uma atualização disponível ou uma versão mais recente. A satisfação completa não é muito interessante para um mercado que depende de pessoas continuarem desejando.

Por isso acho que a discussão sobre o iPhone acaba sendo apenas um exemplo de uma questão muito maior. O aparelho em si não é o verdadeiro problema, também não acho que seja correto tratar quem compra um modelo novo como alguém fútil ou alienado. Existem inúmeras razões legítimas para trocar de celular, e mesmo quando a única razão é simplesmente gostar da novidade, isso continua sendo uma escolha pessoal.

O que considero mais interessante é perceber como os nossos desejos são construídos. Uma pessoa pode realmente querer o aparelho novo e, ao mesmo tempo, ter sido influenciada por publicidade, amigos, redes sociais e pelo ambiente cultural em que vive. Uma coisa não anula a outra. Talvez nunca consigamos separar completamente o que nasceu dentro de nós daquilo que aprendemos a desejar observando o mundo.

No final, a pergunta que fica para mim não é se vale a pena comprar o próximo iPhone. Isso depende completamente de cada pessoa, de suas necessidades, de suas condições e daquilo que espera de um aparelho. A pergunta que considero mais importante é por que sentimos tanta dificuldade em continuar satisfeitos com algo que ainda funciona perfeitamente quando surge uma versão mais nova.

Talvez seja porque confundimos novidade com necessidade. Talvez porque atribuímos aos objetos um significado maior do que sua utilidade. Talvez porque vivemos cercados por comparações ou porque aprendemos a enxergar aquilo que temos sempre em relação ao que ainda podemos ter.

E talvez seja justamente por isso que um celular de 2017 ainda consiga me fazer pensar sobre uma coisa que vai muito além da tecnologia. Ele me lembra que um produto pode continuar cumprindo sua função mesmo depois de deixar de ser novidade. O fato de existir uma versão melhor não apaga automaticamente o valor daquilo que já temos.

No fim, comprar um celular novo pode ser uma escolha perfeitamente razoável. O que talvez mereça mais atenção é o momento em que começamos a acreditar que não temos escolha.

Porque existe uma diferença enorme entre olhar para o lançamento de um novo iPhone e pensar "eu quero esse aparelho" e olhar para o mesmo lançamento pensando "eu preciso desse aparelho".

Talvez essa diferença pareça pequena, mas diz bastante sobre a maneira como nos relacionamos com o consumo, com os outros e, principalmente, com aquilo que acreditamos precisar para nos sentirmos satisfeitos.

22 de set. de 2026

Diário de uma Apotecária é bom demais e eu fui burro por julgar

Eu vi gente falando bem, vi meu irmão assistindo e elogiando, até minha mãe curtiu a história, e eu seguia achando que seria "chato" sem nem ao menos parar para assistir a um episódio. Confesso que tento lutar contra isso, mas constantemente me pego julgando algo antes de conhecer, só pelo receio de perder tempo com algo de que não goste.


Porém, me dei o direito de assistir despretensiosamente e confesso: está sendo um dos melhores animes que já assisti na vida. Consigo comprovar isso com dois pontos muito importantes para mim que um anime poderia ter que eu adoraria ver.


O episódio acaba e eu nem percebo: sabe quando você assiste a algo e, do nada, já está nos créditos? Como o tempo passa tão rápido assim? A história é tão envolvente que você se permite assistir sem nem se preocupar com a duração, algo que por sinal eu amava em Attack on Titan e até mesmo Sword Art Online, dois animes que tinham isso comigo e me levavam na história.


Estou rindo de verdade: não são aquelas risadas clássicas de animes de comédia, mas sim aquela risada gostosa e inesperada. Uma cena rápida, uma reação sutil, e você já está rindo sem perceber. Diário de uma Apotecária está sendo mestre nisso, principalmente nas interações de Maomao e Jinshi


Eu ainda estou longe de terminar, mas o anime já me ganhou com uma facilidade enorme.  E sabe eu fico pensando em quantas outras histórias incríveis eu já devo ter deixado passar simplesmente por essa teimosia idiota de tirar conclusões precipitadas. É engraçado como a gente cria uma barreira com certos conteúdos sem motivo algum. No final das contas, dar o braço a torcer valeu a pena e serviu como um bom lembrete de que eu preciso parar de me privar de boas experiências só por um pré-julgamento bobo, mas não, isso não significa que eu vá assistir Naruto não importa os argumentos kkk

19 de set. de 2026

Eu li Corte de Espinhos e Rosas e olha...



Eu realmente critiquei o livro um tempo atrás, quando escrevi falando sobre as cenas hot aqui e como a história tinha muitos pontos bons, mas vacilava nesse quesito. Porém, eu estava ainda na metade da leitura e não tinha visto tudo o que ela poderia me oferecer. Fui inocente nisso e eu assumo. Contudo, algo me surpreendeu bastante e eu preciso me redimir com a narrativa de Corte de Espinhos e Rosas.


Uma coisa que me cativou profundamente na protagonista, do meio para o fim do livro, é como Feyre é muito maior do que a típica "donzela frágil" de romances fantásticos. Ela possui uma humanidade crua na forma de lidar com os problemas: ela chora, sente um medo paralisante e carrega marcas psicológicas profundas, mas, ao mesmo tempo, demonstra uma força descomunal, movida principalmente pelo amor e pelo senso de proteção àqueles que gosta. Ao acompanhar a sequência de desafios finais sob a montanha, eu já previa que ela sairia vitoriosa, mas o verdadeiro impacto esteve na construção dessa vitória. A forma como tudo foi descrito e a maneira como ela lidou com cada provação, dor e sacrifício moral foram o que realmente me deixaram impressionado e satisfeito com o desfecho.


Analisando a obra como um todo, é impossível não notar como o worldbuilding ou criação de mundos para os intimos de Sarah J. Maas se torna um dos grandes trunfos da história. A transição do mundo humano, frio e miserável, para a riqueza mágica e perigosa de Prythian é feita com maestria. A divisão do reino feérico em diferentes Cortes, com suas dinâmicas políticas e maldições implícitas, aguça a curiosidade do leitor e expande o horizonte da trama, especialmente quando começamos a vislumbrar as nuances e mistérios de outros territórios, como a Corte Noturna.


Por outro lado, o livro não é isento de falhas. A primeira metade padece de um ritmo substancialmente arrastado, onde a narrativa se prende excessivamente à rotina doméstica e contemplativa no palácio da Corte Primaveril, o que pode testar a paciência de quem busca uma fantasia repleta de ação imediata e eu sei que tudo isso foi feito de certa forma proposital. Mas também, o desenvolvimento inicial do romance beira alguns clichês do gênero, com dinâmicas de proteção que por vezes soam possessivas ou artificiais, tornando a paixão inicial menos convincente do que as complexas provações que surgem na metade final. Da mesma forma, alguns personagens secundários promissores acabam ficando em segundo plano por um longo período, dependendo do clímax frenético para finalmente demonstrar sua verdadeira relevância.


Ainda assim, o saldo do primeiro livro é extremamente positivo. Ao equilibrar a fragilidade humana de Feyre com uma narrativa que cresce em tensão, perigo e amadurecimento, a obra consegue superar seu início morno e entregar uma experiência envolvente, preparando o terreno de forma brilhante para a sequência da saga.


No entanto, eu confesso que não parti logo pro segundo livro, na verdade estou preferindo pular pra outra história, porque o livro não me ganhou essa vontade de continuar lendo, mesmo eu assistindo alguns vídeos e ouvindo bastante que o segundo livro é perfeito, pra mim Sarah não conseguiu me fazer ter essa vontade, mas quem sabe um dia eu vá.

15 de set. de 2026

Guardiões do Bosque



Dia 24 do Ciclo Outonal, Ano do Dragão XX

Uma manhã comum, de mais uma semana comum, em uma vida comum. Sempre foi assim e, pelo que parece, sempre será.

Para alguns, ser o guardião do bosque é um trabalho honroso; para outros, é desperdiçar talento, e há quem diga que estar aqui é o mesmo que desistir de uma vida de aventuras. Mas para mim, isso nada mais é do que uma aposentadoria. Já vivi, vi e fiz tantas coisas que meus jovens colegas de patrulha teriam pavor só de ouvir nas histórias dos bardos. Já sobrevivi a emboscadas que a Guarda Real nem sequer estaria preparada para lidar caso seus tão amados e protegidos herdeiros do trono algum dia sofressem no campo de batalha.

E quando o príncipe aceitou meu pedido para me tornar apenas o guardião deste bosque, foi algo que me deixou verdadeiramente feliz. Eu, um estranho vindo de terras distantes, de outros reinos, com mais mistério na bagagem do que se pode imaginar e talentos que poderiam servir a qualquer alta patente militar, finalmente consegui algo tranquilo. Uma lança simples de madeira, uma capa verde sob o sol dourado do outono e a tarefa insignificante de vigiar a grande fenda rochosa de arenito avermelhado que cruza a fronteira.

Ou pelo menos... era o que eu esperava.

O sol do meio-dia banhava a folhagem dourada das árvores cheguei ao Pico das Três Sentinelas — o afloramento de rocha vermelha que forma um portal natural sobre o vale. Três patrulheiros da guarda do feudo estavam parados no topo do arco, visíveis contra a luz alaranjada, vigiando a estrada como de costume.

Ajustei a lança no ombro e me aproximei pela sombra dos carvalhos, mas o cheiro que o vento do outono trouxe não era o de terra molhada ou folhas secas. Era cheiro de ferro cru e ozônio.

Aos meus pés, semi-oculta pelas raízes entranhadas na grama, repousava uma armadura completa da Guarda Real. Não havia sangue dentro dela. O metal prateado estava intacto, ostentando o brasão gravado do príncipe, porém vazio — como se o cavaleiro que a vestia tivesse sido evaporado de dentro para fora por um esconjuro arcano. Ao lado do elmo sem rosto, cravada fundo na terra por uma força descomunal, estava uma espada longa de aço valiriano, com runas de contenção brilhando em um tom azulado e gélido.

Ajoelhei-me, tocando a lâmina. As runas gravadas no aço não eram de proteção contra monstros comuns, ursos-coruja ou trolls de rocha. Eram runas de selamento de alta magia negra — do tipo utilizado apenas pelo alto clérigo da capital para prender criaturas abissais.

Olhei para cima, em direção às três figuras paradas no topo da rocha. Eles não estavam vigiando a estrada. Estavam imóveis. Parados como estátuas de madeira sob o vento de outono.

A verdade caiu sobre mim como o peso de uma maça de combate.

O príncipe nunca aceitou meu pedido por pena, bondade ou por achar que eu era apenas um veterano cansado querendo uma vida pacata. Ele sabia exatamente quem eu era. Sabia do meu passado no continente sulista e das guerras ocultas que travei contra as seitas arcanas antes de cruzar a fronteira.

Aquele arco rochoso não era uma simples formação natural do bosque. Era um Monólito de Vinculação, um antigo portal de invocação adormecido desde a Era dos Dragões. A Guarda Real havia tentado conter o que quer que estivesse despertando ali embaixo — e falharam miseravelmente, deixando para trás apenas suas armaduras vazias.

O príncipe não me concedeu um trabalho simples para me dar sossego. Ele colocou o extermínio em pessoa na porta de entrada do portal para que, quando o selo finalmente ruísse, a primeira linha de defesa fosse alguém descartável e sem vínculos com o reino.

O som suave de pedras estalando ecoou pelo arco. No alto da rocha, as inscrições arcanas entalhadas pelos antigos começaram a pulsar na mesma cor azul-fria da espada cravada no chão. As sombras sob o arco se esticaram contra a luz do sol, tomando forma e densidade.

Respirei fundo, sentindo o ar frio do outono encher meus pulmões. Soltei a lança de patrulha — de madeira frágil, inútil para o que viria a seguir — e segurei o cabo de couro da espada de aço rúnico cravada na terra, puxando-a de um só golpe.

Ajustei a capa sobre o ombro e encarei a fenda cintilante sob o arco de pedra.

— "Trabalho simples e de pouco estresse", eles disseram... — murmurei para o silêncio do bosque, esboçando um sorriso amargo. — Vossa Alteza vai me dever um aumento salarial desgraçado por isso.

12 de set. de 2026

Shonen é genérico demais? A fórmula por trás de Black Torch, Gachiakuta e Tougen Anki


Se você acompanha a nova safra de mangás de ação, provavelmente já teve aquela sensação incômoda de déjà-vu. Ao colocar Black Torch, Gachiakuta e Tougen Anki lado a lado, fica evidente como a estrutura do shonen moderno repete moldes quase idênticos. O enredo central é praticamente o mesmo, mudando apenas a roupagem estética, o verniz conceitual ou o poder da vez. Não se trata de uma simples coincidência, mas da aplicação estratégica de uma fórmula comercial que sacrifica a originalidade em nome de um sucesso previsível, totalmente diferente do que já assistimos nos animes da nossa infância 

A semelhança começa na própria construção dos protagonistas. Jiro Azuma em Black Torch, Rudo em Gachiakuta e Shiki Ichinose em Tougen Anki são espelhos uns dos outros. Todos se encaixam no arquétipo do jovem impulsivo, mal compreendido e rejeitado pela sociedade, empurrado para a marginalidade por razões fora de seu controle, bem pelo menos o Rudo é assim, mas ai temos o Jiro e Shiki que são a clara personificação de delinquente. E para alimentar essa narrativa, surge a conveniente amnésia sobre as próprias origens: o passado desses personagens é um grande buraco negro. Nenhum deles sabe realmente de onde veio, quem eram seus pais ou o verdadeiro motivo da perda de seus guardiões, reservando esse mistério para ser revelado no momento mais conveniente da trama sob a forma de um "poder hereditário".

O catalisador da história também segue uma cartilha rígida. Para combater as ameaças de seus respectivos mundos, o protagonista precisa se apoderar da própria força do inimigo. Jiro faz um pacto de fusão com o Mononoke Rago; Rudo é lançado ao Abismo e desperta a habilidade de manipular os objetos descartados; Shiki descobre carregar o sangue dos lendários Oni para confrontar os Momotarou. 

Em seguida, o roteiro os força inevitavelmente a entrar para uma organização secreta ou escola especializada, seja a Unidade Black Torch, os Zeladores ou a Academia Rakshasa, onde encontram um mentor experiente e brincalhão, um rival de personalidade oposta e uma tutora linha-dura.

As poucas divergências entre as obras são meramente visuais e superficiais. Black Torch aposta numa estética ninja urbana fortemente inspirada no estilo de Bleach. Gachiakuta tenta se destacar com um traço punk focado na crítica ao consumismo e à cultura do descarte. Tougen Anki busca originalidade invertendo o folclore tradicional japonês ao transformar os demônios Oni em heróis e os justiceiros Momotarou em vilões.

No entanto, por baixo dessas camadas de tinta, a espinha dorsal é exatamente a mesma. Os arcos de treinamento, o ritmo dos confrontos e as reviravoltas sobre o passado dos personagens se desenrolam de forma espelhada. Essa repetição contínua prova que a indústria muitas vezes prefere reciclar clichês testados a arriscar novas estruturas narrativas.

E sabe o mais engraçado? Eu assisti todos eles e gostei de todos...

9 de set. de 2026

Eu li O Abismo de Celina e olha...

 

 

Terminei de ler O Abismo de Celina e confesso que ainda estou tentando processar tudo o que rolou nesse livro. Sabe aquele livro que te puxa para dentro da história e não te deixa respirar até a última página? É exatamente essa a sensação. A história mergulha de cabeça na mente da Celina, transformando o "abismo" do título em algo super palpável. Acompanhar a jornada dela é quase como estar dentro da cabeça da personagem, sentindo cada dúvida, cada medo e cada dilema como se fossem nossos, principalmente na parte final do livro, o ultimo jogo foi tenso.

O ponto mais alto da leitura, sem dúvidas, é a forma como a escrita te abraça. O texto é fluido, bonito de ler e consegue ser poético sem parecer forçado. A autora sabe construir o suspense emocional como ninguém e isso é ótimo, principalmente pras pessoas que não gostam de livros brasileiros, Ariane Castelo autora conseguiu fazer com que eu me apegasse à Celina e torcer de verdade para que ela encontrasse um rumo no meio de tanto caos interno. 


Agora, nem tudo são flores durante a caminhada. Em alguns capítulos ali pelo meio da história, senti que o ritmo deu uma desacelerada um pouco além da conta, e talvez por isso aquelas cenas "hot" que eu particularmente não curti, principalmente pela protagonista que me foi apresentado. O livro também foca tanto nos pensamentos e na introspecção da protagonista que a história trava um pouquinho em alguns momentos, o que pode dar uma preguiça se você estiver esperando mais ação ou reviravoltas constantes o que não tem Então fica aquela sensação de que algumas passagens poderiam ter sido um tiquinho mais diretas para manter o pique do início.

No fim das contas, a experiência vale demais a pena. O Abismo de Celina é uma leitura marcante, com pontos muito fortes e reflexões que continuam alugando um triplex na nossa cabeça bem depois de fechar o livro. Se você curte uma história focada em sentimentos reais, dramas humanos e aquele toque de mistério psicológico, pode jogar na sua lista sem medo. 

E eu nem sei se tem alguma continuação, mas já digo que eu acho que teria que ter, porque olha... Celina é babadeira  

8 de set. de 2026

A hora do mal nem é tanto terror

 


Eu odeio filmes de terror, não pela ideia de que pode trazer coisas ruins e bla bla bla, é mais porque não gosto mesmo, não tenho essa coragem que as pessoas tem, mas eu gostei de A Hora do Mal, parece muito que esse filme saiu direto dos anos 70.


É aquele tipo de filme que te deixa desconfortável sem nem precisar colocar um monstro na tela. Se você for ver o filme esperando uma maratona de sustos igual absolutamente todos os filmes hoje em dia, vai ter uma experiência no mínimo chata, e a culpa nem é sua, a gente se acostumou com o terror de hoje, que vive de barulhos altos, criaturas em computação gráfica e aquela adrenalina rápida que passa em cinco minutos, como se tudo hoje fosse feito pra ser um corte no tiktok/instagram


Esse filme faz o caminho totalmente oposto e parece ter saído direto dos anos 1970, na mesma vibe de clássicos como O Bebê de Rosemary (filme que estava passando no meu nascimento inclusive, minha mãe odiou por isso). Ele não tem pressa nenhuma. Em vez de jogar um susto atrás do outro na sua cara, a história prefere te cozinhar em banho-maria. O medo aqui vem do silêncio, das encaradas estranhas, daquela sensação incômoda de que tem algo muito errado acontecendo, mas ninguém está dizendo o quê. O "monstro" da história não é uma entidade do além, mas sim a cabeça dos próprios personagens se desmontando aos poucos. É uma tensão que vai acumulando bem devagarzinho até o ar ficar pesado de verdade.


Se você está cansado daquela mesma fórmula batida dos filmes de terror atuais, onde você já sabe exatamente quando o fantasma vai aparecer, esse filme é perfeito. A Hora do Mal vale super a pena porque ele respeita a sua inteligência e não tenta te assustar como se você estivesse em um trem-fantasma de parque de diversões. O mais legal é que ele deixa um rastro: quando os créditos sobem, você não esquece o filme em dois minutos. Você pode elogiar o final, reclamar dele, mas esquece não vai.

7 de set. de 2026

Clevatess o arroz com feijão dos animes de fantasia


Em uma época em que a indústria de animes é inundada por isekais de títulos infinitos e sistemas que parecem RPGs de videogame, encontrar uma obra que aposta no básico pode parecer arriscado. No entanto, Clevatess: Majuu no Ou to Akago to Shikabane no Yuusha nome grande kkkk prova exatamente o oposto: o simples, quando feito com maestria, é imbatível. Dizer que a obra é o "arroz com feijão" da fantasia moderna não é um demérito, mas sim o maior elogio possível e a prova de que você não precisa reinventar a roda para entregar uma história absurdamente cativante.

A obra abraça com força as raízes de um dark fantasy clássico. O mundo é cruel, as consequências são reais e os humanos estão longe de ser heróis impecáveis. Em vez de perder tempo explicando sistemas de magia absurdamente complexos ou menus flutuantes na tela, a narrativa prefere focar no peso de seu próprio universo. Existe uma ameaça constante e uma atmosfera de tensão palpável que segura o público do início ao fim.

O grande tempero dessa jornada está na sua dinâmica central: o Rei das Bestas, uma entidade ancestral capaz de varrer reinos inteiros do mapa, assume a responsabilidade de proteger um bebê humano para tentar compreender a espécie que o incomodou. Colocar o "vilão" no papel de guardião cria um contraste fascinante entre a brutalidade monstruosa e a extrema fragilidade humana, gerando um desenvolvimento de personagem totalmente orgânico e envolvente.

Além disso, o ritmo da história não perde tempo com enrolações. A narrativa anda para a frente de forma ágil, movida por escolhas difíceis, combates viscerais e uma construção de mundo que se revela gradualmente através da ação, dispensando diálogos expositivos exaustivos. Se um personagem erra, ele paga o preço.

Essa simplicidade funciona tão bem porque o público de fantasia está fadigado de premissas mirabolantes que prometem revoluções, mas falham na execução mais básica. Enquanto a maioria das obras atuais foca em protagonistas apelões ou cenários genéricos de videogame, esse anime cativa pela sua honestidade intelectual: é uma história crua sobre monstros, sobrevivência e a essência do comportamento humano. É aquele prato bem temperado que você sabe exatamente o que esperar, mas que te surpreende pela qualidade a cada garfada, provando que uma boa execução sempre vencerá o excesso de conceitos.

5 de set. de 2026

Eu sou imã de livro de adolescente

 


Ultimamente, ando numa maré de azar surreal com os livros que escolho. E tudo por culpa da minha mania maravilhosa de não ler sinopse, não olhar o gênero e não pesquisar absolutamente nada antes de me jogar na leitura.

Com essa minha preguiça, eu li Academia Arcana, tô no meio de Corte de Espinhos e Rosas e quase terminando O Abismo de Celina.

E o que esses três têm em comum? Nitidamente, são livros focados no público feminino — seja a galera jovem ou mulheres adultas querendo um romance de tirar o fôlego. Sem querer generalizar, óbvio, é só uma piada, mas eu consegui a proeza de engatar três leituras seguidas com cenas hot e protagonistas femininas que podiam ser incríveis... mas passam a história toda apaixonadas pelo "vilão".

E talvez seja justamente isso que esteja me incomodando mais nessas três obras. Não o romance em si, porque eu não tenho absolutamente nada contra uma boa história de amor. O problema começa quando parece que a personagem poderia estar vivendo algo muito mais interessante, mas em algum momento o autor decide que a prioridade dela precisa ser se apaixonar pelo homem mais complicado, misterioso e emocionalmente indisponível que existe naquele universo.

É quase uma regra: quanto mais problemático o homem, maior parece ser a chance de ele ser o interesse amoroso.

Essa sequência de leituras me fez refletir: de onde vem essa obsessão de todo mundo hoje em dia pelo tal do vilão incompreendido?

Não é só um clichê bobo do BookTok, vai além. Desde os tempos dos poetas românticos, a gente tem uma queda por aquilo que assusta e atrai ao mesmo tempo. O vilão bonitão é a versão moderna do bad boy clássico: aquele cara sombrio, meio sem moral, que não oferece uma vida calma, mas entrega uma montanha-russa de emoções.

Isso me fez pensar um pouco sobre essas protagonistas. Apesar das diferenças entre as histórias, existe algo curioso em comum: todas poderiam ser muito mais fascinantes se a trama não colocasse o romance como uma espécie de centro gravitacional ao redor do qual todo o resto precisa girar. São personagens que têm conflitos e trajetórias próprias, personalidades que poderiam ser exploradas e, em alguns casos, situações que renderiam um enredo inteiro sem precisar colocar um homem no meio.

A graça disso tudo não é ter topado com romance e cena quente por acidente, mas perceber como a gente é fisgado por essa fórmula. Queremos ver mulheres poderosas, mas a indústria sabe que, se colocar um vilão sarcástico e misterioso no meio, a gente esquece até a história principal pra passar pano pra ele.

E eu fico pensando em como isso funciona tão bem não apenas nos livros, mas na própria maneira como enxergamos histórias de amor. Existe uma tendência enorme de confundir dificuldade com profundidade. Se uma pessoa é fechada, misteriosa e difícil de entender, automaticamente parece que existe algo muito profundo escondido ali. Se ela trata todo mundo mal, mas trata a protagonista um pouco melhor, pronto: temos uma conexão especial. Se ela tem um passado trágico, todas as atitudes questionáveis começam a ganhar uma justificativa.

É uma ideia bastante poderosa, porque existe algo de especial em acreditar que fomos escolhidos justamente pela pessoa que ninguém consegue alcançar. O problema é que isso funciona muito melhor em um livro do que na vida real.

Na ficção, você sabe que aquele homem misterioso provavelmente vai revelar um passado triste, vai se apaixonar pela protagonista e, depois de algumas centenas de páginas, talvez até aprenda a ser uma pessoa minimamente funcional. Na vida real, alguém que trata todo mundo mal continua sendo alguém que trata todo mundo mal — mesmo que, eventualmente, decida tratar você bem.

E acho curioso como a fantasia consegue transformar algumas dessas coisas em romance.

Ainda assim, existe uma certa graça em escolher um livro sem saber absolutamente nada sobre ele. Às vezes você encontra exatamente o que esperava; às vezes, algo completamente diferente. E às vezes você descobre, depois de centenas de páginas, que aparentemente comprou uma fantasia sobre magia, monstros e reinos esquecidos, quando na verdade comprou a história de uma mulher que vai passar boa parte do livro tentando descobrir se o homem mais problemático daquele universo também gosta dela.

E, sinceramente, eu ainda não sei qual dos três está me enganando mais.

O pior é que eu continuo lendo.

Talvez essa seja a verdadeira parte trágica dessa história.

3 de set. de 2026

A vontade de crescer rápido demais é um problema e a Agath de Witch Hat Atelier vai sofrer com isso


A vontade de crescer rápido demais é uma das armadilhas mais silenciosas da vida adulta, e a Agott, de Witch Hat Atelier, é a perfeita personificação dessa dor.

Ela vive sob a constante e sufocante sensação de que está correndo contra o tempo. Vinda de uma linhagem tradicional e carregando o peso da rejeição, a magia para ela nunca foi um deslumbre ou uma vocação bonita, mas sim uma ferramenta de sobrevivência social. A Agott não estuda para aprender; ela estuda para não ser descartada. Por causa disso, sua ambição se transforma em um perfeccionismo defensivo: o erro não é uma etapa do aprendizado, é um fracasso pessoal imperdoável.

O grande drama da Agott é que o universo da obra funciona justamente na direção oposta ao seu ritmo. A magia criada na história exige paciência, leveza e precisão no traço. Quando você tenta apressar o traço ou usar um feitiço cujo peso a sua maturidade ainda não consegue sustentar, o resultado é desastroso. Ao tentar se tornar uma bruxa adulta antes da hora, a Agott começa a se despedaçar por dentro. A ansiedade de estar sempre um passo à frente a impede de criar laços reais com as outras aprendizes, transformando a busca pela autonomia em uma prisão emocional onde ela se recusa a pedir ajuda.

Para piorar, esse desespero por validação a coloca em um risco constante. O atalho para o crescimento rápido, em Witch Hat Atelier, atende pelo nome de magia proibida. É nos jovens desesperados por provar seu valor que os Chapéus de Aba encontram o terreno mais fértil para manipulação.

Essa ferida se abre de vez quando ela é colocada ao lado da Coco. Enquanto a Agott tenta avançar na base do esforço doloroso e do cumprimento rígido de regras, a Coco avança impulsionada pela curiosidade genuína e pelo fascínio. Ver alguém florescer sem precisar se destruir no processo é o maior fantasma da Agott.

A trajetória dela deixa uma lição amarga e muito real: a maturidade não é algo que se força. Quando tentamos pular as etapas do nosso desenvolvimento para colher resultados antes do tempo, nós não nos tornamos mais fortes — apenas acumulamos cicatrizes muito mais cedo.

1 de set. de 2026

Ecos do Bom Lugar


Há poucas coisas neste mundo que merecem ser ditas, observadas ou até mesmo lembradas. Existem horrores que precisamos guardar no fundo do coração, lançar ao mar do esquecimento e nunca mais trazer à tona. Isso é algo que todo morador — ou melhor, todo sobrevivente — da vila de Bom Lugar sabe muito bem.

Que ironia de nome para o lugar que mais gerou órfãos. Um lugar que fez pessoas descobrirem tormentos que nenhum grande sábio da corte real dos Sete Mundos jamais estudou. Outrora, Bom Lugar fazia jus ao nome. Era um vilarejo farto, incrustado em um vale calmo, de moradores tão acolhedores quanto nenhum viajante jamais viu em outra parte. Tinha a melhor taverna que já frequentei, de cerveja escura e risadas sinceras, além dos campos de cultivo mais prósperos da região. Eu cresci correndo por suas alamedas de terra, respirando o cheiro de pão fresco e terra molhada. Eu amava aquele lugar.

Contudo, certo dia, um alquimista surgiu.

Ele trazia uma túnica gasta pelo pó da estrada, o olhar faminto de conhecimento e soluções para problemas que sequer existiam. Ofereceu curas milagrosas para males que antes nos levavam apenas aos conselhos dos velhos xamãs. Pouco a pouco, o homem destruiu o delicado equilíbrio do nosso mundo. A ruína não foi instantânea — oh, não... a mudança veio a passos lentos, sorrateiros e venenosos. Pessoas felizes começaram a se isolar em seus próprios pesadelos e ambiguidades; os campos de cultivo, onde os jovens costumavam se deitar para escapar dos afazeres ao entardecer, perderam a cor. A vegetação secou, e as colheitas apodreceram na terra antes mesmo de brotarem. Em questão de um ano, Bom Lugar tornou-se o canto do mundo a ser evitado.

Com o declínio da vida, as sombras da floresta ao redor se espessaram e trouxeram os primeiros monstros. As criaturas começaram a cercar os limites do vilarejo, matando o gado e arrastando os incautos para a escuridão. Os moradores viram-se obrigados a pegar em machados e foices para lutar. Foi nesse cenário de desespero que o alquimista — antes visto apenas como um curandeiro exótico — semeou a discórdia na mente do conselho e do líder de Bom Lugar.

“Por que limitar nossos defensores às barreiras da carne fraca? Por que não aprimorar o corpo de nossos guerreiros?”, dizia ele, com a voz aveludada e carregada de uma confiança venenosa.

O líder da vila aceitou a proposta sem pensar duas vezes. Cego pela responsabilidade e pela culpa de ver seu povo ruir, ele acreditava que a segurança do vilarejo era a única coisa que importava no mundo. No entanto, por trás daquela promessa de vigor e invencibilidade, nasceram aberrações incontroláveis. Homens e mulheres transformados em carcaças desfiguradas, tomados por uma sede insaciável de sangue.

“Um mero erro de cálculo... as correntes sanguíneas rejeitaram o reagente. Preciso fazer alguns ajustes”, justificava o alquimista a cada guerreiro cujas feições e carne se contorciam em abominações macabras.

Mais e mais pessoas tornaram-se cobaias silenciosas de suas falhas. Mais e mais a vila morria de dentro para fora. Até que não restou um único soldado são. Isso, contudo, não pareceu deter a ambição do alquimista — afinal, ainda restavam os idosos, as mulheres, as crianças. Ele insistia que, com cobaias mais jovens ou mais flexíveis, em algum momento o experimento daria certo.

Não deu.

Certo dia, uma comitiva da Guarda Real — composta por soldados em armaduras reluzentes, magos de batalha e o próprio Rei — marchou até Bom Lugar para investigar o silêncio da região. Encontraram lá o óbvio: uma terra condenada, tomada por pesadelos ambulantes que precisavam ser exterminados. O líder da vila ainda tentou argumentar, de joelhos na lama, implorando por tempo, garantindo que o alquimista traria a cura para todos os modificados. Mas a farsa ruiu em minutos. Descobriu-se que o estrangeiro era, na verdade, um fugitivo procurado por múltiplos reinos — um cientista demente que brincava de Deus através de artes proibidas, necromancia e poções profanas.

A decisão do Rei foi rápida e cruel, porém, na mente da corte, inevitável. Bom Lugar foi condenado ao apagamento. Os magos da corte ergueram uma barreira de névoa densa, mágica e perpétua ao redor de toda a vila. Ninguém mais poderia sair de lá. Qualquer um que ousasse entrar estaria entregue à própria sorte e aos monstros que vagavam pelas ruínas.

Anos se passaram no mundo exterior. Eu, que havia saído da vila ainda jovem para me tornar um mero aprendiz na Escola de Magia da Luz, passei noites em claro estudando grimórios, buscando uma forma de dissipar névoas profanas e purificar corpos corrompidos. Decidi que era hora de marchar de volta.

Caminhei hoje sob a bruma gélida e espectral que agora sufoca as velhas casas de madeira e pedra. O ar aqui dentro tem gosto de cinza e ferro. Os archotes solitários presa às paredes de pedra queimam em um tom esverdeado e estéril, lutando em vão contra a escuridão crescente. As rodas das carroças abandonadas apodrecem na lama negra do caminho; o silêncio pesado da noite só é quebrado, de tempos em tempos, pelo rosnar distante e doloroso das coisas que um dia foram meus vizinhos de infância.

Ajeito o capuz escuro sobre a cabeça e puxo a capa contra o vento frio que uiva entre as telhas quebradas. Seguro firme o meu cajado de madeira entalhada, sentindo a magia da luz pulsar, fraca mas viva, na ponta dos meus dedos. Ela serve como meu único farol neste purgatório.

Lá fora, nos grandes salões da corte, muitos julgaram aquele líder como um homem fraco e um tolo ingênuo. Um governante cuja cegueira e desespero condenaram centenas de inocentes à ruína e ao horror eterno. E talvez eles estejam certos. Mas enquanto observo a névoa engolir a antiga casa de dois andares no topo do vilarejo — o único lugar onde ainda brilha uma lanterna fraca —, sei que não posso voltar atrás.

Estou aqui por uma última promessa que fiz a mim mesmo nas noites escuras da academia de magia. Uma pequena fagulha de esperança de resgatar o homem que errou ao confiar no alquimista... o homem que destruiu nossa terra, mas que eu, mais do que qualquer outra pessoa neste mundo, ainda insisto em chamar de pai.