Mais um iPhone e a falsa necessidade de ter um




Falar de iPhone hoje em dia é quase tão delicado quanto falar de política, futebol ou religião. É um daqueles assuntos que rapidamente conseguem transformar uma conversa comum em uma discussão na internet, principalmente porque existe uma defesa muito forte da marca por parte de alguns usuários.
 
Parece que, para determinadas pessoas, possuir um iPhone também significa ter que explicar constantemente por que ele é melhor, mais bonito, mais seguro ou simplesmente superior aos outros celulares. Eu mesmo já participei desse outro lado da discussão, porque durante muito tempo fui bastante crítico da Apple. Achava exagerado pagar tão caro em um celular e não entendia muito bem o que justificava aquilo. Depois que comecei a usar um, porém, algumas coisas mudaram na minha percepção.

Meu celular é um Iphone 13 de 2017 e, considerando a quantidade de tempo que passo utilizando um smartphone, ainda fico impressionado com o desempenho que ele consegue entregar. Praticamente tudo que faço durante o dia passa pelo aparelho: comunicação, trabalho, música, vídeos, redes sociais, pesquisas, banco, fotografia e entretenimento tiktok até demais. É uma presença constante na minha rotina. Já tive celulares de outras marcas lançados alguns anos depois que não conseguiram manter a mesma experiência de uso durante tanto tempo e estou falando me marca como Samsung que tive um comprado em 2024. Alguns ficaram lentos, começaram a travar ou apresentaram outros problemas antes mesmo de chegarem à idade que o meu aparelho tem hoje. Isso é apenas a minha experiência, obviamente, e não serve para determinar a qualidade de todas as outras marcas, mas foi suficiente para eu reconhecer que existe mérito na forma como a Apple consegue manter seus aparelhos relevantes durante vários anos.

O que me chama atenção, portanto, não é a existência de um aparelho novo ou o fato de ele ser tecnicamente superior ao anterior, é a maneira como nós, consumidores, passamos a enxergar o aparelho que já possuímos depois que uma nova geração chega ao mercado. Até pouco tempo atrás, aquele celular era suficiente, ele funcionava, atendia às nossas necessidades e provavelmente nem ocupava tanto espaço nos nossos pensamentos. Então surge um novo lançamento e começamos a perceber todas as coisas que o nosso aparelho supostamente não tem, a câmera poderia ser melhor, o processador poderia ser mais rápido, a tela poderia ter uma tecnologia mais recente, a bateria poderia durar mais. O aparelho continua exatamente como estava, mas a nossa percepção sobre ele muda.

Essa lógica fica particularmente evidente quando observamos gerações muito próximas de um mesmo produto, existem, naturalmente, avanços entre elas, seria absurdo dizer o contrário, a tecnologia evolui e seria estranho esperar que uma empresa permanecesse parada durante anos, a questão é que uma evolução técnica não necessariamente representa uma mudança significativa para todos os usuários.
 
Uma câmera melhor pode ser muito importante para quem trabalha com fotografia ou produção audiovisual, enquanto para alguém que utiliza o celular principalmente para conversar, assistir vídeos e usar redes sociais a diferença pode ser praticamente irrelevante. O mesmo vale para processamento, tela, bateria e diversas outras características.

É nesse ponto que começo a pensar sobre a diferença entre desejo e necessidade. Epicuro, filósofo que viveu há mais de dois mil anos, já refletia sobre os diferentes tipos de desejos e sobre como nem tudo aquilo que desejamos é realmente necessário para uma vida satisfatória, a ideia parece distante do nosso cotidiano, mas pode ser aplicada de maneira bastante simples ao consumo atual. Um celular pode ser necessário para uma pessoa trabalhar, estudar, se comunicar ou acessar serviços essenciais, o último modelo disponível no mercado, porém, dificilmente pode ser colocado na mesma categoria apenas pelo fato de ser mais novo.

Isso não significa que exista algo de errado em querer comprá-lo, essa distinção é importante. Uma pessoa pode gostar de tecnologia, ter condições financeiras e simplesmente sentir prazer em adquirir um aparelho novo, não existe nenhuma contradição nisso, o que considero interessante é observar como, muitas vezes, tratamos um desejo como se fosse uma necessidade objetiva, como se a ausência daquele produto estivesse realmente prejudicando a nossa vida.

A sociedade de consumo tem uma relação muito forte com essa transformação. Karl Marx, quando discutiu o chamado fetichismo da mercadoria, apresentou uma ideia que, apesar de estar inserida em um contexto muito mais amplo, ajuda a compreender por que determinados objetos passam a significar muito mais do que aquilo que fazem. Uma mercadoria pode adquirir um valor simbólico que ultrapassa sua função prática. Um relógio deixa de ser apenas um instrumento para marcar as horas; um carro pode carregar ideias de sucesso e posição social; uma roupa pode representar pertencimento. O mesmo acontece com os celulares.

Um iPhone, para muita gente, não é somente um aparelho utilizado para acessar a internet. Ele também pode representar uma determinada ideia de qualidade, modernidade, sofisticação ou sucesso. Isso não significa que todos os usuários tenham essa motivação, mas seria difícil negar que a marca construiu um significado cultural próprio. Existe uma diferença simbólica entre simplesmente possuir um iPhone e possuir o modelo que acabou de ser lançado, em determinados ambientes, essa diferença pode ser percebida até antes que alguém veja o aparelho funcionando.

É interessante observar como isso se relaciona com a forma como apresentamos nossas vidas nas redes sociais, hoje, praticamente qualquer experiência pode ser transformada em conteúdo, seja a viagem, o restaurante, a roupa, o carro, a casa e também o celular passam a fazer parte da imagem que construímos publicamente. Não acho que isso seja necessariamente negativo, compartilhar momentos faz parte da maneira como nos comunicamos atualmente. A questão aparece quando essa exposição começa a influenciar a própria maneira como desejamos as coisas.

É muito fácil descobrir que queremos alguma coisa depois de ver outra pessoa utilizando aquilo, um amigo aparece com um celular novo, um influenciador começa a falar sobre determinada função, uma propaganda aparece algumas vezes e, pouco a pouco, aquele produto começa a ocupar espaço na nossa cabeça. Antes disso, talvez nunca tivéssemos pensado nele, não havia uma falta concreta, então a vontade apareceu depois da exposição.

Erich Fromm, em Ter ou Ser, tratou de uma questão que considero especialmente adequada para esse assunto, e discutia a diferença entre uma existência orientada pelo que possuímos e outra baseada naquilo que somos e vivenciamos. Em uma sociedade tão orientada pelo consumo, os objetos acabam participando da construção da nossa identidade. A forma como nos vestimos, os lugares que frequentamos, aquilo que dirigimos e até o celular que usamos podem funcionar como elementos através dos quais comunicamos alguma coisa sobre nós.

Isso ajuda a explicar por que determinadas escolhas de consumo podem despertar reações tão fortes. Quando um produto passa a fazer parte da identidade de alguém, uma crítica àquele produto pode ser percebida como uma crítica à própria pessoa, a discussão deixa de ser sobre especificações técnicas e passa a envolver orgulho, pertencimento e a necessidade de defender uma escolha que já foi feita.

É difícil ignorar o papel da publicidade nesse processo, mas também acho simplista colocar toda a responsabilidade nas empresas. A Apple certamente sabe construir desejo em torno de seus produtos e possui uma das identidades de marca mais fortes do mercado, mas o fenômeno é maior do que uma estratégia de marketing, empresas lançam produtos, consumidores compram, influenciadores utilizam, usuários compartilham suas experiências e outras pessoas observam. As redes sociais aceleram esse processo porque transformam o consumo individual em algo visível para milhares de pessoas.

Nós mesmos fazemos parte disso.

Essa talvez seja uma das características mais interessantes da sociedade contemporânea: muitas vezes não precisamos que alguém nos diga diretamente o que comprar. Basta observar o que as outras pessoas estão comprando. A comparação funciona de maneira muito mais silenciosa do que uma propaganda tradicional. O celular do outro não precisa ser anunciado como melhor para que comecemos a compará-lo com o nosso.

E essa comparação pode acontecer mesmo quando sabemos racionalmente que não existe motivo real para ela, um aparelho de cinco anos pode continuar cumprindo perfeitamente sua função, mas começar a parecer ultrapassado simplesmente porque existem modelos mais recentes. Tecnicamente, nada mudou naquele aparelho entre ontem e hoje. Socialmente, entretanto, ele adquiriu outra aparência.

Talvez seja por isso que eu ache tão interessante o fato de ainda utilizar um celular de 2017. Existem aparelhos muito melhores atualmente e eu não teria dificuldade alguma em reconhecer isso. O meu não possui as melhores câmeras, o processador mais recente ou todas as funções disponíveis nos modelos atuais. Ainda assim, ele continua atendendo às necessidades para as quais foi comprado. A existência de uma tecnologia melhor não necessariamente torna a tecnologia anterior inútil.

Isso vale para muito mais coisas do que celulares.

Talvez parte do problema esteja justamente na dificuldade que desenvolvemos para aceitar que alguma coisa pode ser suficiente, a sociedade de consumo funciona melhor quando estamos constantemente olhando para a próxima coisa. Sempre existe uma melhoria possível, uma atualização disponível ou uma versão mais recente. A satisfação completa não é muito interessante para um mercado que depende de pessoas continuarem desejando.

Por isso acho que a discussão sobre o iPhone acaba sendo apenas um exemplo de uma questão muito maior. O aparelho em si não é o verdadeiro problema, também não acho que seja correto tratar quem compra um modelo novo como alguém fútil ou alienado. Existem inúmeras razões legítimas para trocar de celular, e mesmo quando a única razão é simplesmente gostar da novidade, isso continua sendo uma escolha pessoal.

O que considero mais interessante é perceber como os nossos desejos são construídos. Uma pessoa pode realmente querer o aparelho novo e, ao mesmo tempo, ter sido influenciada por publicidade, amigos, redes sociais e pelo ambiente cultural em que vive. Uma coisa não anula a outra. Talvez nunca consigamos separar completamente o que nasceu dentro de nós daquilo que aprendemos a desejar observando o mundo.

No final, a pergunta que fica para mim não é se vale a pena comprar o próximo iPhone. Isso depende completamente de cada pessoa, de suas necessidades, de suas condições e daquilo que espera de um aparelho. A pergunta que considero mais importante é por que sentimos tanta dificuldade em continuar satisfeitos com algo que ainda funciona perfeitamente quando surge uma versão mais nova.

Talvez seja porque confundimos novidade com necessidade. Talvez porque atribuímos aos objetos um significado maior do que sua utilidade. Talvez porque vivemos cercados por comparações ou porque aprendemos a enxergar aquilo que temos sempre em relação ao que ainda podemos ter.

E talvez seja justamente por isso que um celular de 2017 ainda consiga me fazer pensar sobre uma coisa que vai muito além da tecnologia. Ele me lembra que um produto pode continuar cumprindo sua função mesmo depois de deixar de ser novidade. O fato de existir uma versão melhor não apaga automaticamente o valor daquilo que já temos.

No fim, comprar um celular novo pode ser uma escolha perfeitamente razoável. O que talvez mereça mais atenção é o momento em que começamos a acreditar que não temos escolha.

Porque existe uma diferença enorme entre olhar para o lançamento de um novo iPhone e pensar "eu quero esse aparelho" e olhar para o mesmo lançamento pensando "eu preciso desse aparelho".

Talvez essa diferença pareça pequena, mas diz bastante sobre a maneira como nos relacionamos com o consumo, com os outros e, principalmente, com aquilo que acreditamos precisar para nos sentirmos satisfeitos.

Edson N B Junior

Apaixonado por cultura japonesa, por animes, por mangas, por livros, por qualquer coisa que tome meu tempo e utilize muito bem dele.

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