5 de abr. de 2025

Presença é um filme de terror que não dá medo


Sabe quando você é pego de surpresa ao ver um filme? Bem exatamente isso foi o que aconteceu hoje, no caso não comigo, mas sim com a minha namorada, era para ser só mais um passeio normal no shopping, mas acabou que paramos pra ver um filme.


O filme em si era o menos pior dos que eu achei que estavam em cartaz, e como parecia ser uma temática meio terror, achei que seria uma boa para assistir, e por muita bondade de Deus, minha namorada aceitou ver, já que eu tenho um dedo podre absurdo para escolher filmes, serio gente é sempre um pior do que o outro, no entanto hoje foi diferente se ela não saiu reclamando, é porque pelo menos foi interessante. 


Sem mais enrolação, vamos tentar destrinchar um pouco o que eu entendi sobre o filme, pois é aquele tipo de filme como um final meio enigmático. 


Presença, o mais recente trabalho do renomado diretor Steven Soderbergh que eu não sei quem é, mas é famoso, apresenta uma abordagem inovadora ao gênero de terror ao narrar a história sob a perspectiva de um espírito que habita uma casa. Este ponto de vista singular busca subverter as convenções tradicionais dos filmes de casas assombradas, oferecendo ao público uma experiência imersiva e diferenciada.


A trama acompanha uma família que se muda para uma nova residência na tentativa de recomeçar após perdas significativas. A matriarca Rebekah e seu marido Chris esforçam-se para manter a unidade familiar mesmo que em diversas vezes enxergamos que a mãe tem algumas coisas escondidas, enquanto seus filhos, Tyler e Chloe, lidam com suas próprias angústias. Chloe, em particular, é assombrada pela morte misteriosa de sua melhor amiga, acreditando que seu espírito agora habita o novo lar.


Soderbergh utiliza planos-sequência e a técnica de ponto de vista (POV) o mesmo que o seu tiktok preferido adora utilizar para colocar o espectador na posição do espírito observador, criando uma atmosfera claustrofóbica e intimidadora. Essa escolha estilística, embora audaciosa, resulta em uma desconexão emocional com os personagens, especialmente com Chloe, cuja vulnerabilidade é central para a narrativa.


O roteiro, insere elementos como a aparição de uma médium e insinuações sobre o passado de Rebekah, mas esses aspectos são pouco desenvolvidos, deixando lacunas na história. Além disso, a ausência de closes e a constante distância da câmera dificultam a empatia do público com os personagens e reduzem a tensão esperada em um thriller sobrenatural.


Daqui em diante é só spoiler


Mas é no desfecho que Presença revela sua faceta mais simbólica e perturbadora. A inesperada aparição do irmão de Chloe, até então apenas uma sombra no pano de fundo da narrativa até porque todas as cenas dele é pra se vangloriar de algo ou citar que a irmã está errada/maluca sobre alguma coisa. Então ele aparecer no espelho no final, não se trata de um susto gratuito, mas de uma virada dramática profundamente enraizada no tema central do filme: o luto que se recusa a ser nomeado.


A ideia da presença observadora estar "presa entre o presente e o futuro", como menciona a médium em uma cena-chave, ganha nova camada de sentido quando interpretamos que essa presença seja, desde o início, o irmão de Chloe. Ele não apenas representa um trauma não resolvido do passado, mas também um elo emocional que impedia a protagonista de seguir em frente. Estar "entre o presente e o futuro" é, simbolicamente, estar em suspensão: um estado em que nem o luto foi aceito, nem a vida conseguiu continuar. Assim, a presença do irmão seria a manifestação dessa pausa existencial, uma dor que estagna, que observa, mas não se comunica até ser finalmente reconhecida.


Neste momento, o espectador compreende que o "espírito" que observou toda a história pode muito bem ser uma projeção da própria Chloe, uma consciência diluída no sofrimento, vagando entre a realidade e o inconsciente. A figura do irmão surge, então, como a última chave — o fragmento da memória mais doloroso, aquele que foi trancado para que a mente pudesse continuar funcionando. Sua aparição representa não apenas a materialização do luto, mas o confronto inevitável com tudo o que foi evitado.


Ao invés de fechar com uma catarse tradicional, Soderbergh opta por um silêncio desconcertante, onde a verdade não é explicada, mas sentida — uma escolha que honra a natureza subjetiva do trauma e o fato de que, às vezes, nossos maiores horrores não vêm de fora, mas de dentro.


Conclusão


Em suma, Presença é uma experiência cinematográfica que se destaca pela ousadia técnica e pela tentativa de inovar dentro do gênero. Contudo, a falta de desenvolvimento dos personagens e a desconexão emocional resultante das escolhas estilísticas impedem que o filme alcance seu potencial pleno. É um filme que mais se admira pela forma do que se envolve pelo conteúdo — mas que, em seu final simbólico, oferece um soco emocional silencioso o suficiente para ecoar por dias na mente do espectador.


Dito tudo isso, minha nota no Letterboxd foi: 3,5

29 de mar. de 2025

Uma salva de palmas para quem finalizou a temporada direito



Vamos começar esse post com essa imagem de talvez o único anime da temporada que eu me forcei assistir com a boba inocência de que ele ficaria melhor, eu sempre dropo zilhões de animes e até ai aceitável todo mundo faz isso, porém eu dei chances para esse anime ai, o começo é bom, o meio do anime excelente, mas a conclusão é uma atrocidade, eu assisti os dois últimos episódios em 2x só pra termina de vez. 


Mas tirando isso, a temporada toda foi uma felicidade constante, eu gostei muito dos animes que eu separei para assistir, e não só gostei como me comprometi assistir em todo lançamento e não deixa passar dias até virar dois episódios, três episódios e uma bola de neve sem fim, até porque vamos ser sinceros, quem aqui nunca começou a ver um anime que é bom, mas começa a ficar bem fraquinho e você está doido para termina, mas não quer assistir logo quando sai, ai deixa acumulando episódios até ficar com quase metade da temporada sem ver, passa temporada e ele está ali e você sempre dizendo "eu vou termina"... Você não vai. 


Por isso eu digo com muita felicidade que eu superei meus maiores conflitos internos e todo anime que eu foquei em assistir, eu terminei ele junto da temporada, até porque eu já tinha começado a temporada de janeiro com dois animes da temporada passada, que era muito bom e do nada começou a ficar chato e eu fiquei enrolando. 


Mas eu decidi que seria criterioso e só iria deixar o que de fato eu fosse ver e foi o que aconteceu, e termina a temporada zerado trás muito uma sensação de nostalgia, da época que eu assistir animes e tinha esse foco, e agora o único anime que de fato eu ainda não terminei foi Solo Leveling, mas ai vamos pensar né: até parece que eu vou deixar esse anime acumular, eu virar uma bola de neve.


Enfim, temporada zerada e finalmente em paz, para esperar as próximas atrocidades que vão perturbar nossa semana, eu estou bem neutro com os animes que estão para chegar, nem pensamento bom, nem ruim. 

25 de mar. de 2025

Salaryman ga Isekai é um isekai que funciona



Eu já perdi as contas da quantidade de vezes que eu comentei aqui sobre animes isekai, e como o anime funciona, todo post meu é sempre trazendo um novo isekai que é melhor do que o outro que eu tinha comentado, e como ele é a revolução de tudo blá blá blá, porém de fato eu acertei agora. 


O anime Salaryman ga Isekai ni Ittara Shitennou ni Natta Hanashi amo nomes enormes, surge como uma proposta interessante dentro do gênero isekai, que geralmente explora fantasias juvenis de heróis improváveis sendo transportados para mundos mágicos. No entanto, este anime se distancia do tom tradicionalmente infanto-juvenil e se aprofunda em uma perspectiva mais madura e cínica.


Diferente dos protagonistas adolescentes que frequentemente estrelam os isekais, o personagem principal aqui é um adulto, um verdadeiro 'salaryman' — termo japonês para trabalhadores de escritório presos a rotinas desgastantes. Quando ele é transportado para o mundo de fantasia, o choque cultural não é apenas de quem sai de uma realidade comum para um universo mágico, mas de alguém que carrega traumas, frustrações e uma visão pragmática do mundo.


A crítica ao mercado de trabalho, à exploração corporativa e à busca vazia por validação profissional são temas que permeiam a trama. O fato de o protagonista acabar se tornando um dos 'Shitennou' — os quatro grandes líderes dos vilões — oferece um olhar mais ácido e satírico sobre os clichês do gênero. Ao invés de buscar derrotar o “rei demônio” ou salvar o reino com um coração puro, ele utiliza sua experiência corporativa para gerir estratégias, lidar com questões burocráticas e até mesmo explorar um certo maquiavelismo para alcançar seus objetivos.


O humor do anime é mais próximo de um sarcasmo amargo do que da leveza habitual do isekai. Não há idealizações de heroísmo puro ou romances adolescentes ingênuos, mas reflexões sobre a complexidade da vida adulta, a moralidade cinzenta e o peso das escolhas.


Enquanto muitos isekais servem como um escapismo puro, esse anime se posiciona quase como uma metáfora amarga sobre como, mesmo em um mundo fantástico, somos perseguidos pelas mesmas armadilhas e dilemas éticos do cotidiano adulto. É uma opção interessante para quem já se cansou dos roteiros mais formulaicos e busca algo com um toque de cinismo e crítica social no universo dos isekais.

19 de mar. de 2025

Vinland Saga é bom demais


Recentemente eu me peguei muito perdido no que assistir, tantos animes bons em meio de centenas de animes ruins que acaba fazendo a balança ficar meio ruim, e aí eu acabo me vendo sendo obrigado a ir para os animes que todo mundo fala, pra ver se de fato vale a pena. E foi aí que eu encontrei Vinland Saga, muito por acaso e sem nenhuma expectativa de que o anime fosse tão bom como de fato ele é. 


E agora vamos destrinchar isso, Se existe um anime que eleva o gênero de ação histórica a um novo patamar, esse anime é Vinland Saga.  A obra se destaca por seu realismo brutal, personagens complexos e uma narrativa que vai além do simples desejo de vingança.


O protagonista, Thorfinn, inicia sua jornada motivado pelo desejo de matar Askeladd, o homem que assassinou seu pai. No entanto, ao longo da história, percebemos que Vinland Saga não é apenas sobre batalhas sangrentas, mas sobre o peso da guerra e a busca por um propósito maior.


E calma, nada disso é spoiler, isso é basicamente o plot da história, você começa assistir já sabendo disso, inclusive eu já sabia disso, sem ao menos saber do que se tratava o anime. 


A criança que admirava seu pai se torna um jovem implacável, dedicando sua vida a vingar-se de Askeladd. No entanto, em uma reviravolta interessante, ele não busca sua vingança por meio da fúria desenfreada, mas sim desafiando Askeladd repetidamente para duelos justos. O mercenário, por sua vez, manipula Thorfinn, transformando-o em uma arma útil para seus próprios interesses.


Embora Thorfinn seja o personagem principal, Askeladd é quem realmente carrega a narrativa da primeira temporada. Ele não é um simples vilão; é um estrategista brilhante e um personagem ambíguo, cuja motivação pessoal se revela aos poucos. Sua visão de mundo e suas decisões impactam diretamente o crescimento de Thorfinn e o destino da história.


Ao longo da temporada, Askeladd se envolve nos conflitos políticos da Inglaterra e da Dinamarca, especialmente na luta pelo trono do jovem príncipe Canute. Esse arco adiciona uma camada de complexidade à trama, saindo do clichê da simples vingança para um jogo de poder e manipulação.


Eu fui assistir achando depois de alguns episódios que era só mais um anime de vikings com lutas bem animadas, porém eu percebi que o anime é muito mais voltado para filosofia, religião, buscar entender quem nós somos de verdade, na qual eu curti muito mais as cenas de diálogos e conversas do que as de luta. 


E toda essa minha opinião é pautada somente na primeira temporada, pois foi a que eu assisti até agora. 


15 de mar. de 2025

Eren Yeager e a Síndrome de Jesus: Quando a Salvação se Torna um Fardo



Se existe um personagem no mundo dos animes que exemplifica a obsessão por uma missão redentora, esse personagem é Eren Yeager, de Attack on Titan. Sua trajetória, desde um jovem impulsivo até um líder revolucionário, carrega semelhanças inquietantes com o que conhecemos como Síndrome de Jesus, um fenômeno psicológico onde o indivíduo se vê como o salvador da humanidade. Mas até que ponto Eren se encaixa nesse arquétipo messiânico? 


Desde o início da série, Eren se mostra guiado por um desejo intenso de liberdade. Sua frase icônica, "Eu nasci livre!", ecoa sua convicção inabalável de que o mundo está aprisionado e que ele é o único capaz de libertá-lo. Isso se intensifica quando ele descobre os segredos da família Yeager e compreende o papel que pode desempenhar na luta contra Marley.


Em sua evolução, Eren começa a acreditar que apenas ele tem o direito e o dever de decidir o destino do mundo. Ele se torna uma figura quase mitológica para os habitantes de Paradis e um terror para o restante da humanidade. Seu plano de extermínio em massa pelo Retumbar não é apenas uma estratégia militar, mas uma verdadeira “purificação”, um sacrifício que ele está disposto a fazer para criar um mundo onde seus amigos possam viver livres.


A Síndrome de Jesus se manifesta em pessoas que acreditam ter sido escolhidas para salvar a humanidade, mesmo que isso exija medidas extremas. Em Eren, podemos identificar características desse transtorno, tais como:


- Convicção absoluta de que seu caminho é o único certo: Mesmo diante de alternativas e conselhos de seus amigos, Eren insiste que o extermínio é a única solução.

- Auto-sacrifício e martírio: Ele sabe que sua jornada o levará à destruição, mas aceita isso como parte de sua missão.

- Interpretação de eventos como sinais divinos: A conexão com as memórias do Titã Fundador faz com que ele veja o passado e o futuro de maneira determinística, como se seu destino já estivesse escrito.

- Sensação de perseguição e oposição ao sistema: Desde criança, Eren se sente preso em um mundo injusto e vê os Titãs e Marley como opressores que precisam ser eliminados.


Diferente da imagem tradicional de um salvador, Eren não busca redenção através do amor ou do perdão, mas sim através da destruição. Seu caminho lembra figuras históricas e mitológicas que acreditaram ser heróis, mas acabaram se tornando vilões aos olhos do mundo. Seu arco final em Attack on Titan nos faz questionar: ele realmente salvou alguém ou apenas trocou um opressor por outro?


O que torna Eren um personagem fascinante é justamente essa ambiguidade. Ele é um herói para Paradis, um monstro para Marley e, no fundo, um ser humano dilacerado pelo peso de suas próprias convicções. Seu sacrifício final, onde ele permite que Mikasa o mate, pode ser interpretado como a última peça de sua jornada messiânica: o salvador que precisa morrer para que sua visão de mundo se concretize.


Eren Yeager é uma das figuras mais complexas do mundo dos animes, e sua trajetória nos leva a refletir sobre o perigo das ideologias extremas. Sua jornada, repleta de sofrimento e obsessão, se encaixa perfeitamente no arquétipo de alguém com a Síndrome de Jesus, transformando-o não apenas em um personagem inesquecível, mas em um símbolo da linha tênue entre redenção e destruição.