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| Art: Andrzej Dybowski |
A lama gelada entrava pelas frestas dos dedos de Caelen, ardendo em seus cortes recentes. Ele estava imóvel, comprimido contra a base de um tronco colossal, com a respiração presa na garganta e o coração martelando como um tambor desesperado. Seus olhos fitavam a pequena clareira logo à frente, onde a floresta parecia zombar de sua sobrevivência.
Não havia som de vento. Apenas o gotejar incessante da chuva nas folhas largas e o estalo ocasional de galhos sob patas pesadas.
Caelen era um batedor experiente das fronteiras, acostumado com os perigos da região, mas nada o havia preparado para Aquilo. Havia três dias, sua expedição cartográfica se perdera nas Terras Cegas após um colapso geomagnético que inutilizara as bússolas. Agora, restava apenas ele — e a criatura que os caçava, um a um, com uma fome que parecia nunca ter fim.
À margem do riacho lamacento, o cão-sombra — uma aberração de pelagem cinzenta e costelas à mostra, nativa daquela zona morta — curvava o focinho. Ele farejava o ar úmido, os olhos leitosos fixos em algum rastro invisível. Mas o animal não estava sozinho.
Lá no alto, pendurado por grossas cordas de cipó retorcido entre os dosséis das árvores centenárias, balançava o simulacro. Era uma carcaça humanóide tecida com galhos secos e espinhos, uma oferenda sôfrega deixada pelos cultores esquecidos que outrora vagavam por ali. O boneco parecia observar tudo com órbitas vazias, pingando uma seiva escura e espessa que se misturava à água da chuva.
O estômago de Caelen revirou. Ele sentiu um gosto metálico na boca. Seus ferimentos latejavam. Ele tentou mover a mão direita para alcançar a adaga na cintura, mas seus dedos roçaram em algo macio e repulsivo escondido sob as folhas.
Olhando de relance para o canto inferior direito de seu campo de visão, a realidade despencou. Metade do corpo de seu companheiro de equipe, jazia parcialmente submerso na lama e na folhagem podre, com o peito aberto em um arranjo cirúrgico bizarro, como se a própria floresta o tivesse dissecado para absorver seus nutrientes.
O cão-sombra parou de cheirar o chão. Suas orelhas ergueram-se bruscamente. Ele virou a cabeça na direção exata de onde Caelen se escondia.
Um som ecoou na mente de Caelen — não um som físico, mas um arrastar de raízes sob o solo, acompanhado por um sussurro coletivo e abafado, como centenas de vozes implorando por socorro de dentro da terra:
“Fique... conosco... seras bem vindo...”
O cão deu o primeiro passo na direção do tronco.
Caelen fechou os olhos, apertou a empunhadura da adaga e percebeu, com um pavor gélido, que nas Terras Cegas dentre todo os Sete Mundos a morte não era o fim da jornada; era apenas o momento em que se tornava parte daquele apetite eterno.

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