29 de set. de 2026

A falta que você me faz

Esse vai ser um post diferente dos que eu costumo escrever aqui, e tudo isso por causa de uma música que eu ouvi recentemente graças ao meu irmão caçula. Meus dois irmãos adoram ouvir música e descobrir novos artistas pelo mundo, enquanto eu já sou mais de curtir os mesmos que sempre escuto, por saber que as músicas são boas. Mas não tem como negar que a criatividade das pessoas sempre me surpreende.

Há pouco mais de dois dias, meu irmão me colocou para ouvir o Tiny Desk de um cantor argentino que, de acordo com ele, iria me surpreender pela forma como o cara sabia compor. Lá fui eu, inocente, achando que iria ouvir algo legal e simples. No entanto, quando terminou, fiquei bastante pensativo sobre algo que está sempre na minha mente.

Já faz alguns anos que perdi meu pai. Não gosto de lembrar o dia, o mês ou sequer o ano, porque isso me faz entender o quanto tempo se passou e como isso acaba me destruindo e fazendo meu dia ser bem ruim. Mas já faz alguns anos, e, desde o momento em que ele partiu, eu não consigo me ver longe dele. Não consigo me enxergar neste mundo sem a sua presença, é louco como, em cada situação por que passo ou vivo, eu me lembro de nossas conversas e busco na minha mente certas lembranças. É como se, mesmo tendo partido, eu ainda tivesse os conselhos dele me guiando na vida, me ajudando a caminhar. Mesmo que ele tenha partido, ele não partiu...

E é muito doida essa ideia de perder alguém. Eu trabalho na área da saúde há uns nove anos e convivo quase diariamente com a ideia da morte, mas a ideia de perder alguém? Sabe, a pessoa estar ali contigo e agora não estar mais? Demorou para a ficha cair sobre isso, demorou para enxergar essa ausência, e agora o que me resta é a saudade. Depois que ouvi a música Niño, do Milo J, eu pensei: "Então é assim que alguém sente a perda?". Ver alguém colocando em palavras e em música o que eu sinto.

Óbvio, eu sei, existem zilhões de músicas que falam sobre a perda, e eu já ouvi muitas delas. Mas quando você escuta uma sem querer, quando é pego de surpresa, isso é algo que mexe com você. A sua mente começa a disparar milhões de pensamentos, disparar milhões de lembranças, de dores, de felicidades... a sua mente só pensa em uma coisa:

Eu sinto falta.

E olha, esse sentimento, a saudade, a falta de alguém que já partiu, é algo que eu não consigo desejar nem para a pessoa que algum dia me fez mal ou que algum dia irá fazer. O medo, o sentimento de impotência, de saber que você não pode fazer nada, absolutamente nada... Você só pode sentir, e sentir calado, porque não há grito no mundo que faça a pessoa voltar. Não há lamentação ou desejo: nada vai trazer a pessoa que você tanto amou de volta. E isso dói, olha como isso dói... Mas é, infelizmente, algo que precisamos passar, algo que precisamos viver. Quer você queira ou não, você vai viver.

Então eu faço esse pedido não só por mim, mas também pelo meus irmãos: abrace, beije, converse, ria com alguém que você ama. Troque, sim, uma noite na rua com seus amigos; troque, sim, uma virada de noite jogando; troque o que for necessário para passar um minutinho a mais com aqueles que você ama. Porque pai e mãe infelizmente não são imortais e, pela lei natural da vida, eles vão antes da gente.

E se você, assim como eu, teve um pai presente, que acompanhou cada passo seu, acompanhe também cada passo dele. Mesmo que seja o último, esteja lá por ele, como ele esteve por você quando você nasceu.

Te amo, pai. A falta que você me faz me dói até hoje.

26 de set. de 2026

Mais um iPhone e a falsa necessidade de ter um




Falar de iPhone hoje em dia é quase tão delicado quanto falar de política, futebol ou religião. É um daqueles assuntos que rapidamente conseguem transformar uma conversa comum em uma discussão na internet, principalmente porque existe uma defesa muito forte da marca por parte de alguns usuários.
 
Parece que, para determinadas pessoas, possuir um iPhone também significa ter que explicar constantemente por que ele é melhor, mais bonito, mais seguro ou simplesmente superior aos outros celulares. Eu mesmo já participei desse outro lado da discussão, porque durante muito tempo fui bastante crítico da Apple. Achava exagerado pagar tão caro em um celular e não entendia muito bem o que justificava aquilo. Depois que comecei a usar um, porém, algumas coisas mudaram na minha percepção.

Meu celular é um Iphone 13 de 2017 e, considerando a quantidade de tempo que passo utilizando um smartphone, ainda fico impressionado com o desempenho que ele consegue entregar. Praticamente tudo que faço durante o dia passa pelo aparelho: comunicação, trabalho, música, vídeos, redes sociais, pesquisas, banco, fotografia e entretenimento tiktok até demais. É uma presença constante na minha rotina. Já tive celulares de outras marcas lançados alguns anos depois que não conseguiram manter a mesma experiência de uso durante tanto tempo e estou falando me marca como Samsung que tive um comprado em 2024. Alguns ficaram lentos, começaram a travar ou apresentaram outros problemas antes mesmo de chegarem à idade que o meu aparelho tem hoje. Isso é apenas a minha experiência, obviamente, e não serve para determinar a qualidade de todas as outras marcas, mas foi suficiente para eu reconhecer que existe mérito na forma como a Apple consegue manter seus aparelhos relevantes durante vários anos.

O que me chama atenção, portanto, não é a existência de um aparelho novo ou o fato de ele ser tecnicamente superior ao anterior, é a maneira como nós, consumidores, passamos a enxergar o aparelho que já possuímos depois que uma nova geração chega ao mercado. Até pouco tempo atrás, aquele celular era suficiente, ele funcionava, atendia às nossas necessidades e provavelmente nem ocupava tanto espaço nos nossos pensamentos. Então surge um novo lançamento e começamos a perceber todas as coisas que o nosso aparelho supostamente não tem, a câmera poderia ser melhor, o processador poderia ser mais rápido, a tela poderia ter uma tecnologia mais recente, a bateria poderia durar mais. O aparelho continua exatamente como estava, mas a nossa percepção sobre ele muda.

Essa lógica fica particularmente evidente quando observamos gerações muito próximas de um mesmo produto, existem, naturalmente, avanços entre elas, seria absurdo dizer o contrário, a tecnologia evolui e seria estranho esperar que uma empresa permanecesse parada durante anos, a questão é que uma evolução técnica não necessariamente representa uma mudança significativa para todos os usuários.
 
Uma câmera melhor pode ser muito importante para quem trabalha com fotografia ou produção audiovisual, enquanto para alguém que utiliza o celular principalmente para conversar, assistir vídeos e usar redes sociais a diferença pode ser praticamente irrelevante. O mesmo vale para processamento, tela, bateria e diversas outras características.

É nesse ponto que começo a pensar sobre a diferença entre desejo e necessidade. Epicuro, filósofo que viveu há mais de dois mil anos, já refletia sobre os diferentes tipos de desejos e sobre como nem tudo aquilo que desejamos é realmente necessário para uma vida satisfatória, a ideia parece distante do nosso cotidiano, mas pode ser aplicada de maneira bastante simples ao consumo atual. Um celular pode ser necessário para uma pessoa trabalhar, estudar, se comunicar ou acessar serviços essenciais, o último modelo disponível no mercado, porém, dificilmente pode ser colocado na mesma categoria apenas pelo fato de ser mais novo.

Isso não significa que exista algo de errado em querer comprá-lo, essa distinção é importante. Uma pessoa pode gostar de tecnologia, ter condições financeiras e simplesmente sentir prazer em adquirir um aparelho novo, não existe nenhuma contradição nisso, o que considero interessante é observar como, muitas vezes, tratamos um desejo como se fosse uma necessidade objetiva, como se a ausência daquele produto estivesse realmente prejudicando a nossa vida.

A sociedade de consumo tem uma relação muito forte com essa transformação. Karl Marx, quando discutiu o chamado fetichismo da mercadoria, apresentou uma ideia que, apesar de estar inserida em um contexto muito mais amplo, ajuda a compreender por que determinados objetos passam a significar muito mais do que aquilo que fazem. Uma mercadoria pode adquirir um valor simbólico que ultrapassa sua função prática. Um relógio deixa de ser apenas um instrumento para marcar as horas; um carro pode carregar ideias de sucesso e posição social; uma roupa pode representar pertencimento. O mesmo acontece com os celulares.

Um iPhone, para muita gente, não é somente um aparelho utilizado para acessar a internet. Ele também pode representar uma determinada ideia de qualidade, modernidade, sofisticação ou sucesso. Isso não significa que todos os usuários tenham essa motivação, mas seria difícil negar que a marca construiu um significado cultural próprio. Existe uma diferença simbólica entre simplesmente possuir um iPhone e possuir o modelo que acabou de ser lançado, em determinados ambientes, essa diferença pode ser percebida até antes que alguém veja o aparelho funcionando.

É interessante observar como isso se relaciona com a forma como apresentamos nossas vidas nas redes sociais, hoje, praticamente qualquer experiência pode ser transformada em conteúdo, seja a viagem, o restaurante, a roupa, o carro, a casa e também o celular passam a fazer parte da imagem que construímos publicamente. Não acho que isso seja necessariamente negativo, compartilhar momentos faz parte da maneira como nos comunicamos atualmente. A questão aparece quando essa exposição começa a influenciar a própria maneira como desejamos as coisas.

É muito fácil descobrir que queremos alguma coisa depois de ver outra pessoa utilizando aquilo, um amigo aparece com um celular novo, um influenciador começa a falar sobre determinada função, uma propaganda aparece algumas vezes e, pouco a pouco, aquele produto começa a ocupar espaço na nossa cabeça. Antes disso, talvez nunca tivéssemos pensado nele, não havia uma falta concreta, então a vontade apareceu depois da exposição.

Erich Fromm, em Ter ou Ser, tratou de uma questão que considero especialmente adequada para esse assunto, e discutia a diferença entre uma existência orientada pelo que possuímos e outra baseada naquilo que somos e vivenciamos. Em uma sociedade tão orientada pelo consumo, os objetos acabam participando da construção da nossa identidade. A forma como nos vestimos, os lugares que frequentamos, aquilo que dirigimos e até o celular que usamos podem funcionar como elementos através dos quais comunicamos alguma coisa sobre nós.

Isso ajuda a explicar por que determinadas escolhas de consumo podem despertar reações tão fortes. Quando um produto passa a fazer parte da identidade de alguém, uma crítica àquele produto pode ser percebida como uma crítica à própria pessoa, a discussão deixa de ser sobre especificações técnicas e passa a envolver orgulho, pertencimento e a necessidade de defender uma escolha que já foi feita.

É difícil ignorar o papel da publicidade nesse processo, mas também acho simplista colocar toda a responsabilidade nas empresas. A Apple certamente sabe construir desejo em torno de seus produtos e possui uma das identidades de marca mais fortes do mercado, mas o fenômeno é maior do que uma estratégia de marketing, empresas lançam produtos, consumidores compram, influenciadores utilizam, usuários compartilham suas experiências e outras pessoas observam. As redes sociais aceleram esse processo porque transformam o consumo individual em algo visível para milhares de pessoas.

Nós mesmos fazemos parte disso.

Essa talvez seja uma das características mais interessantes da sociedade contemporânea: muitas vezes não precisamos que alguém nos diga diretamente o que comprar. Basta observar o que as outras pessoas estão comprando. A comparação funciona de maneira muito mais silenciosa do que uma propaganda tradicional. O celular do outro não precisa ser anunciado como melhor para que comecemos a compará-lo com o nosso.

E essa comparação pode acontecer mesmo quando sabemos racionalmente que não existe motivo real para ela, um aparelho de cinco anos pode continuar cumprindo perfeitamente sua função, mas começar a parecer ultrapassado simplesmente porque existem modelos mais recentes. Tecnicamente, nada mudou naquele aparelho entre ontem e hoje. Socialmente, entretanto, ele adquiriu outra aparência.

Talvez seja por isso que eu ache tão interessante o fato de ainda utilizar um celular de 2017. Existem aparelhos muito melhores atualmente e eu não teria dificuldade alguma em reconhecer isso. O meu não possui as melhores câmeras, o processador mais recente ou todas as funções disponíveis nos modelos atuais. Ainda assim, ele continua atendendo às necessidades para as quais foi comprado. A existência de uma tecnologia melhor não necessariamente torna a tecnologia anterior inútil.

Isso vale para muito mais coisas do que celulares.

Talvez parte do problema esteja justamente na dificuldade que desenvolvemos para aceitar que alguma coisa pode ser suficiente, a sociedade de consumo funciona melhor quando estamos constantemente olhando para a próxima coisa. Sempre existe uma melhoria possível, uma atualização disponível ou uma versão mais recente. A satisfação completa não é muito interessante para um mercado que depende de pessoas continuarem desejando.

Por isso acho que a discussão sobre o iPhone acaba sendo apenas um exemplo de uma questão muito maior. O aparelho em si não é o verdadeiro problema, também não acho que seja correto tratar quem compra um modelo novo como alguém fútil ou alienado. Existem inúmeras razões legítimas para trocar de celular, e mesmo quando a única razão é simplesmente gostar da novidade, isso continua sendo uma escolha pessoal.

O que considero mais interessante é perceber como os nossos desejos são construídos. Uma pessoa pode realmente querer o aparelho novo e, ao mesmo tempo, ter sido influenciada por publicidade, amigos, redes sociais e pelo ambiente cultural em que vive. Uma coisa não anula a outra. Talvez nunca consigamos separar completamente o que nasceu dentro de nós daquilo que aprendemos a desejar observando o mundo.

No final, a pergunta que fica para mim não é se vale a pena comprar o próximo iPhone. Isso depende completamente de cada pessoa, de suas necessidades, de suas condições e daquilo que espera de um aparelho. A pergunta que considero mais importante é por que sentimos tanta dificuldade em continuar satisfeitos com algo que ainda funciona perfeitamente quando surge uma versão mais nova.

Talvez seja porque confundimos novidade com necessidade. Talvez porque atribuímos aos objetos um significado maior do que sua utilidade. Talvez porque vivemos cercados por comparações ou porque aprendemos a enxergar aquilo que temos sempre em relação ao que ainda podemos ter.

E talvez seja justamente por isso que um celular de 2017 ainda consiga me fazer pensar sobre uma coisa que vai muito além da tecnologia. Ele me lembra que um produto pode continuar cumprindo sua função mesmo depois de deixar de ser novidade. O fato de existir uma versão melhor não apaga automaticamente o valor daquilo que já temos.

No fim, comprar um celular novo pode ser uma escolha perfeitamente razoável. O que talvez mereça mais atenção é o momento em que começamos a acreditar que não temos escolha.

Porque existe uma diferença enorme entre olhar para o lançamento de um novo iPhone e pensar "eu quero esse aparelho" e olhar para o mesmo lançamento pensando "eu preciso desse aparelho".

Talvez essa diferença pareça pequena, mas diz bastante sobre a maneira como nos relacionamos com o consumo, com os outros e, principalmente, com aquilo que acreditamos precisar para nos sentirmos satisfeitos.

22 de set. de 2026

Diário de uma Apotecária é bom demais e eu fui burro por julgar

Eu vi gente falando bem, vi meu irmão assistindo e elogiando, até minha mãe curtiu a história, e eu seguia achando que seria "chato" sem nem ao menos parar para assistir a um episódio. Confesso que tento lutar contra isso, mas constantemente me pego julgando algo antes de conhecer, só pelo receio de perder tempo com algo de que não goste.


Porém, me dei o direito de assistir despretensiosamente e confesso: está sendo um dos melhores animes que já assisti na vida. Consigo comprovar isso com dois pontos muito importantes para mim que um anime poderia ter que eu adoraria ver.


O episódio acaba e eu nem percebo: sabe quando você assiste a algo e, do nada, já está nos créditos? Como o tempo passa tão rápido assim? A história é tão envolvente que você se permite assistir sem nem se preocupar com a duração, algo que por sinal eu amava em Attack on Titan e até mesmo Sword Art Online, dois animes que tinham isso comigo e me levavam na história.


Estou rindo de verdade: não são aquelas risadas clássicas de animes de comédia, mas sim aquela risada gostosa e inesperada. Uma cena rápida, uma reação sutil, e você já está rindo sem perceber. Diário de uma Apotecária está sendo mestre nisso, principalmente nas interações de Maomao e Jinshi


Eu ainda estou longe de terminar, mas o anime já me ganhou com uma facilidade enorme.  E sabe eu fico pensando em quantas outras histórias incríveis eu já devo ter deixado passar simplesmente por essa teimosia idiota de tirar conclusões precipitadas. É engraçado como a gente cria uma barreira com certos conteúdos sem motivo algum. No final das contas, dar o braço a torcer valeu a pena e serviu como um bom lembrete de que eu preciso parar de me privar de boas experiências só por um pré-julgamento bobo, mas não, isso não significa que eu vá assistir Naruto não importa os argumentos kkk

19 de set. de 2026

Eu li Corte de Espinhos e Rosas e olha...



Eu realmente critiquei o livro um tempo atrás, quando escrevi falando sobre as cenas hot aqui e como a história tinha muitos pontos bons, mas vacilava nesse quesito. Porém, eu estava ainda na metade da leitura e não tinha visto tudo o que ela poderia me oferecer. Fui inocente nisso e eu assumo. Contudo, algo me surpreendeu bastante e eu preciso me redimir com a narrativa de Corte de Espinhos e Rosas.


Uma coisa que me cativou profundamente na protagonista, do meio para o fim do livro, é como Feyre é muito maior do que a típica "donzela frágil" de romances fantásticos. Ela possui uma humanidade crua na forma de lidar com os problemas: ela chora, sente um medo paralisante e carrega marcas psicológicas profundas, mas, ao mesmo tempo, demonstra uma força descomunal, movida principalmente pelo amor e pelo senso de proteção àqueles que gosta. Ao acompanhar a sequência de desafios finais sob a montanha, eu já previa que ela sairia vitoriosa, mas o verdadeiro impacto esteve na construção dessa vitória. A forma como tudo foi descrito e a maneira como ela lidou com cada provação, dor e sacrifício moral foram o que realmente me deixaram impressionado e satisfeito com o desfecho.


Analisando a obra como um todo, é impossível não notar como o worldbuilding ou criação de mundos para os intimos de Sarah J. Maas se torna um dos grandes trunfos da história. A transição do mundo humano, frio e miserável, para a riqueza mágica e perigosa de Prythian é feita com maestria. A divisão do reino feérico em diferentes Cortes, com suas dinâmicas políticas e maldições implícitas, aguça a curiosidade do leitor e expande o horizonte da trama, especialmente quando começamos a vislumbrar as nuances e mistérios de outros territórios, como a Corte Noturna.


Por outro lado, o livro não é isento de falhas. A primeira metade padece de um ritmo substancialmente arrastado, onde a narrativa se prende excessivamente à rotina doméstica e contemplativa no palácio da Corte Primaveril, o que pode testar a paciência de quem busca uma fantasia repleta de ação imediata e eu sei que tudo isso foi feito de certa forma proposital. Mas também, o desenvolvimento inicial do romance beira alguns clichês do gênero, com dinâmicas de proteção que por vezes soam possessivas ou artificiais, tornando a paixão inicial menos convincente do que as complexas provações que surgem na metade final. Da mesma forma, alguns personagens secundários promissores acabam ficando em segundo plano por um longo período, dependendo do clímax frenético para finalmente demonstrar sua verdadeira relevância.


Ainda assim, o saldo do primeiro livro é extremamente positivo. Ao equilibrar a fragilidade humana de Feyre com uma narrativa que cresce em tensão, perigo e amadurecimento, a obra consegue superar seu início morno e entregar uma experiência envolvente, preparando o terreno de forma brilhante para a sequência da saga.


No entanto, eu confesso que não parti logo pro segundo livro, na verdade estou preferindo pular pra outra história, porque o livro não me ganhou essa vontade de continuar lendo, mesmo eu assistindo alguns vídeos e ouvindo bastante que o segundo livro é perfeito, pra mim Sarah não conseguiu me fazer ter essa vontade, mas quem sabe um dia eu vá.

15 de set. de 2026

Guardiões do Bosque



Dia 24 do Ciclo Outonal, Ano do Dragão XX

Uma manhã comum, de mais uma semana comum, em uma vida comum. Sempre foi assim e, pelo que parece, sempre será.

Para alguns, ser o guardião do bosque é um trabalho honroso; para outros, é desperdiçar talento, e há quem diga que estar aqui é o mesmo que desistir de uma vida de aventuras. Mas para mim, isso nada mais é do que uma aposentadoria. Já vivi, vi e fiz tantas coisas que meus jovens colegas de patrulha teriam pavor só de ouvir nas histórias dos bardos. Já sobrevivi a emboscadas que a Guarda Real nem sequer estaria preparada para lidar caso seus tão amados e protegidos herdeiros do trono algum dia sofressem no campo de batalha.

E quando o príncipe aceitou meu pedido para me tornar apenas o guardião deste bosque, foi algo que me deixou verdadeiramente feliz. Eu, um estranho vindo de terras distantes, de outros reinos, com mais mistério na bagagem do que se pode imaginar e talentos que poderiam servir a qualquer alta patente militar, finalmente consegui algo tranquilo. Uma lança simples de madeira, uma capa verde sob o sol dourado do outono e a tarefa insignificante de vigiar a grande fenda rochosa de arenito avermelhado que cruza a fronteira.

Ou pelo menos... era o que eu esperava.

O sol do meio-dia banhava a folhagem dourada das árvores cheguei ao Pico das Três Sentinelas — o afloramento de rocha vermelha que forma um portal natural sobre o vale. Três patrulheiros da guarda do feudo estavam parados no topo do arco, visíveis contra a luz alaranjada, vigiando a estrada como de costume.

Ajustei a lança no ombro e me aproximei pela sombra dos carvalhos, mas o cheiro que o vento do outono trouxe não era o de terra molhada ou folhas secas. Era cheiro de ferro cru e ozônio.

Aos meus pés, semi-oculta pelas raízes entranhadas na grama, repousava uma armadura completa da Guarda Real. Não havia sangue dentro dela. O metal prateado estava intacto, ostentando o brasão gravado do príncipe, porém vazio — como se o cavaleiro que a vestia tivesse sido evaporado de dentro para fora por um esconjuro arcano. Ao lado do elmo sem rosto, cravada fundo na terra por uma força descomunal, estava uma espada longa de aço valiriano, com runas de contenção brilhando em um tom azulado e gélido.

Ajoelhei-me, tocando a lâmina. As runas gravadas no aço não eram de proteção contra monstros comuns, ursos-coruja ou trolls de rocha. Eram runas de selamento de alta magia negra — do tipo utilizado apenas pelo alto clérigo da capital para prender criaturas abissais.

Olhei para cima, em direção às três figuras paradas no topo da rocha. Eles não estavam vigiando a estrada. Estavam imóveis. Parados como estátuas de madeira sob o vento de outono.

A verdade caiu sobre mim como o peso de uma maça de combate.

O príncipe nunca aceitou meu pedido por pena, bondade ou por achar que eu era apenas um veterano cansado querendo uma vida pacata. Ele sabia exatamente quem eu era. Sabia do meu passado no continente sulista e das guerras ocultas que travei contra as seitas arcanas antes de cruzar a fronteira.

Aquele arco rochoso não era uma simples formação natural do bosque. Era um Monólito de Vinculação, um antigo portal de invocação adormecido desde a Era dos Dragões. A Guarda Real havia tentado conter o que quer que estivesse despertando ali embaixo — e falharam miseravelmente, deixando para trás apenas suas armaduras vazias.

O príncipe não me concedeu um trabalho simples para me dar sossego. Ele colocou o extermínio em pessoa na porta de entrada do portal para que, quando o selo finalmente ruísse, a primeira linha de defesa fosse alguém descartável e sem vínculos com o reino.

O som suave de pedras estalando ecoou pelo arco. No alto da rocha, as inscrições arcanas entalhadas pelos antigos começaram a pulsar na mesma cor azul-fria da espada cravada no chão. As sombras sob o arco se esticaram contra a luz do sol, tomando forma e densidade.

Respirei fundo, sentindo o ar frio do outono encher meus pulmões. Soltei a lança de patrulha — de madeira frágil, inútil para o que viria a seguir — e segurei o cabo de couro da espada de aço rúnico cravada na terra, puxando-a de um só golpe.

Ajustei a capa sobre o ombro e encarei a fenda cintilante sob o arco de pedra.

— "Trabalho simples e de pouco estresse", eles disseram... — murmurei para o silêncio do bosque, esboçando um sorriso amargo. — Vossa Alteza vai me dever um aumento salarial desgraçado por isso.